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sexta-feira, 3 de abril de 2009

Gosto não se discute?

A música é uma arte que pode ser aprendida e cultivada. Se alguém não gosta de determinado gênero musical, é preciso primeiro verificar se ele conhece esse gênero. E para conhecer um gênero de música mais elaborado nem sempre é suficiente ouvi-lo só uma ou duas vezes. Há linguagens musicais com sintaxes complexas que só são compreendidas mediante análise, exatamente como acontece com os textos escritos.

Aliás, existe uma nítida relação entre o hábito de ler com os gêneros mais elaborados de música. Só se tem prazer pela leitura quando se entende o que lê. Da mesma forma, a música também requer um esforço grande por parte do ouvinte, para que se possa entender a linguagem, as mensagens e, a partir daí, aprecia-la.

Sendo assim, os gêneros de música mais elaborados como o jazz e a bossa nova, entre outros, muitas vezes não são apreciados pela maioria de pessoas, simplesmente porque elas não os compreendem. É por isso que a música de Tom Jobim e a de Ray Charles podem não ser apreciadas por quem não teve educação musical ou não viveu em ambiente cultural que favorecesse o contato com esses gêneros.

No entanto, qualquer pessoa que não esteja acostumada a ouvir determinada música popular mais sofisticada, ou até mesmo a música erudita ou clássica, pode descobrir a beleza que há nesses gêneros, bastando para isso algum esforço, paciência, além de procurar se livrar de um certo preconceito comum de quem “não ouviu e não gostou”.

Fazer uso da premissa de que “gosto não se discute” para classificar uma obra musical como ruim é, além de simplista, desconhecer que a música apresenta harmonias, melodias, e várias outras questões técnicas que devem sim ser discutidas e compreendidas antes de serem julgadas.

É difícil alguém ouvir o violão e a voz de João Gilberto com atenção, por diversas vezes e em silêncio, e não gostar do que ouviu. Mas não é impossível. Há quem conheça o trabalho dele e não goste, não se identifique. No entanto, deve-se reconhecer a qualidade e a virtuosidade de seus trabalhos. Também há quem não goste da pessoa de João Gilberto, porque nem sempre é fácil separar o artista de sua obra, mas isto é uma outra história.

O que cabe finalmente destacar é que é possível se educar para a música e que a música é uma arte que deve ser cultivada por todos, com enormes benefícios para os indivíduos e para toda a sociedade. 

Eduardo Beraba Villarim

terça-feira, 29 de abril de 2008

Independente Futebol Clube

Circuito Fora do Eixo lança portal para expandir e fortalecer a produção musical independente.


No ar desde o início do mês, o portal Fora do Eixo se destina a abastecer produtores, bandas e jornalistas com informações e discussões sobre a produção independente em todo território nacional. Parte de um projeto maior - o Circuito Fora do Eixo - o site obedece à lógica da livre circulação de informação e é gerido por membros dos coletivos que integram o projeto. No entanto, a comunicação externa ainda é fraca.

Fundado em 2005, o Circuito Fora do Eixo é uma associação de produtoras de eventos, bandas, jornalistas e casas de shows, que procura integrar e estimular a produção musical independente principalmente nos estados que se encontram fora do alcance do eixo Rio-São Paulo. “As metas iniciais eram promover ações que estimulassem a circulação de bandas, produtores e jornalistas, bem como estimular o escoamento de produtos culturais”, explica Marielle Ramires, coordenadora de comunicação do Espaço Cubo, um dos coletivos fundadores do projeto.

Além de informar o público geral e os associados, o portal Fora do Eixo tem o objetivo de aumentar a integração dos diversos setores produtivos da industria musical independente em cada estado. Para gerenciar o site, foi criado um conselho gestor e três “núcleos”: marketing, administrativo e de produção de conteúdo, que conta com editores de Web TV, Web Rádio, Fotografia e Redação.

André Kalil, produtor executivo da Torneira Produções Independentes, única representante de Brasília no Circuito, diz que sua empresa é co-responsável pela área de marketing e redação. “Auxiliamos os grupos de edição, enviando pautas à central”, explica. A Torneira lançou recentemente a Web TV Torneira, um canal no site YouTube que, segundo Kalil, fará parte da Web TV Fora do Eixo. “Ali disponibilizaremos vídeos de nossos eventos”.

Apesar de aumentar a troca de informações entre os associados, o portal ainda não cumpre bem a função de informar a imprensa e o público consumidor de cultura. Muito fechado em si próprio, o Circuito reclama, como todos no meio independente, da falta de exposição e espaço na mídia, mas não tem um sistema eficiente de assessoria de imprensa, por exemplo.

Projeto busca novos caminhos

O Circuito Fora do Eixo funciona de forma horizontal, como uma rede de distribuição de informações e produtos, e a representação local é feita pelos associados, que desenvolvem seus próprios projetos, além de participar de iniciativas integradas do projeto. Atualmente, o Circuito tem representação em 18 estados brasileiros, entre eles todos os das regiões Norte, Centro-Oeste e Sul.

Apesar do nome, hoje o projeto também tem representação no Rio de Janeiro e em São Paulo. “Há muita gente ‘fora do eixo’ no eixo. A questão transpõe a perspectiva geográfica. ‘Fora do eixo’ revela uma condição política”, defende Marielle Ramires. Ainda segundo ela, qualquer coletivo, produtora ou núcleo de produção que se dedique à cultura independente no país pode participar.

Tornar a produção musical independente auto-sustentável é o objetivo final do Fora do Eixo, que tem um sistema próprio de gestão e moeda, os Cards. Essa moeda se insere no conceito de economia solidária defendido pelo projeto, cujo sistema de créditos é baseado na troca de serviços e produtos. “Por meio da troca de serviços e Cards, artistas, produtores e coletivos podem gerir seu trabalho de uma forma que beneficie a todos”, explica André Kalil, da Torneira Produções.

“Bandas hoje consideradas top no circuito independente nacional, como Vanguart e Macaco Bong, começaram suas carreiras trocando apresentações ao vivo por horas no estúdio de ensaio”, exemplifica Ramires, que complementa: “É bem diferente da disputa férrea estabelecida pelo grande mercado, onde quase não há diálogo entre concorrentes”.

Apesar do discurso oficial conter termos como “características socializantes”, “coletivização dos meios de produção” e “alijados pela lógica do grande capital”, o projeto também tem seu lado pragmático. André Kalil diz que estar integrado ao Circuito aumenta a projeção, divulgação e espaço de atuação de sua produtora. Ainda de acordo com ele, é importante Brasília estar representada no Fora do Eixo, pois isso abre espaço para que as bandas locais se apresentem em outros estados, chamando a atenção da mídia independente. “Além disso, o resto do Circuito está de olho no DF”, diz.

Entre outras iniciativas, o Circuito organiza anualmente o Festival Fora do Eixo e o Grito Rock, que este ano aconteceu quase simultaneamente em quase 50 cidades brasileiras, além das edições estrangeiras em Montevidéu e Buenos Aires. Já o Festival Fora do Eixo acontece anualmente em São Paulo, mostrando para a mídia e público paulista as bandas de outras regiões do país.

“Em Brasília o balanço ainda é fraco, mas a nível nacional o Grito [Rock] é muito articulado e forte, contanto com patrocínio de grandes empresas”, explica Kalil. Marielle Ramires também avalia de forma positiva as conquistas do Circuito. “Cada vez há mais agentes produtivos se integrando e investindo força de trabalho na ampliação desta rede”, diz ela.