sexta-feira, 7 de agosto de 2026

2026: O ROCK AINDA RESPIRA ou COMO SE FAZ ISSO MESMO?

Desde 1950 e muito se discute se o rock morreu. Desde então a resposta é: depende. Se você estiver falando estritamente do rock n roll estadunidense dos anos 50, a resposta é sim. Bom, mais ou menos, mas meio que sim. O que veio depois, seja a invasão britânica ou o rock dos hippies da geração Woodstock definitivamente não era a mesma coisa. Dos anos 70 para a frente então, nem se fala. Mas claro que o rock não morreu. Sob qualquer outro enfoque, estava apenas mudando, evoluindo, explorando. E continuou relevante por mais uns 50 anos.

Hoje em dia, 60 e tantos anos depois, quando se pergunta se o rock morreu, a resposta pode ser sim ou não. Do ponto de vista comercial, morreu. Em todo o mundo. Também morreu como um fenômeno de massas, como trilha sonora para a juventude. A geração Z escuta muito pouco rock. O gênero musical não dita mais a moda, gírias ou comportamentos. Ninguém quer começar uma banda na garagem. "Rockstars" nem existem mais e hoje quem faz o papel é algum cantor de uma banda de K Pop, provavelmente.

Mas se você estiver falando de uma morte da produção musical, do lançamento de novos discos de rock, a resposta é não, claro que não morreu. e nem nunca vai morrer. Bom, pelo menos nas próximas décadas, eu acho. Quem sabe... O ponto é que continuam existindo bandas muito boas, antigas ou novas, lançando músicas muito boas de diferentes subgêneros desse conjunto de sons que chamamos de rock (and roll).

Mas assim como o blues ou jazz, o rock passou para outra fase da vida. Não vai voltar às listas de mais tocadas dos streamings, não vai influenciar a cultura adolescente mainstream, não vai ser parte do acontecimento cultural que marcou o ano. Mas vai estar sempre ali, logo abaixo da superfície, cheio de novidades legais para quem curte esse tipo de coisa. Eu curto. Desde 1997. Acho que vou continuar curtindo enquanto respirar. E tiveram algumas coisas que eu curti em particular nesse ano de 2026:

O primeiro registro vai para o New Found Glory, que lançou o que provavelmente foi seu ultimo trabalho. É que Chad Gilbert, guitarrista e compositor da banda, já briga há um tempo contra o câncer e, infelizmente, a doença tá vencendo. Mas enquanto ainda pode, o cara continua produzindo sua arte e criou um ótimo disco. As primeiras 6 músicas de 'Listen Up!' são algumas das melhores que a banda produziu em 20 anos. Algumas das letras já são um olhar para trás, lembrando dos "bons tempos", mas não soam depressivas. Soam como uma celebração da banda, da vida. A segunda metade do disco é um pouco menos memorável, mas a ultima musica, "Frankenstein's Monster", vem com força e com uma bela letra para fechar o álbum da melhor forma possível. Pop punk fazendo o que pop punk faz de melhor.

Outra banda que segue a mesma vibe PMA é o Bouncing Souls, que lançou 'Born To Be', seu melhor disco desde 'Comet', de 2012. Assim como o disco do NFG, esse álbum também é curto, com apenas 10 músicas, o que parece ser uma moda de 2026. Talvez faça mesmo mais sentido no mundo do Spotify e concorrentes. Se é assim, que cortem os excessos e fiquem só com as melhores, como a banda de Nova Jersey fez. Destaque para "As One", um pouco mais pausada, com espaço para o baixo brilhar, uma leve pegada dub, mas com a energia lá em cima, e uma boa letra. "Only Echoes" é uma balada punk rock com influencia de The Cure e "Power" entrega o que o nome promete, e "Asshole Friends" é engraçada e sincera enquanto abre a roda punk.
'Born To Be' vale a pena ser ouvido do inicio a o fim.

Da mesma forma, 'Born to Kill' é enxuto e vale cada segun... bom, tem um cover cafona totalmente desnecessário, mas tirando essa, todas as outras músicas do novo disco do Social Distortion valem ser ouvidas. Depois de 15 anos, Mike Ness e sua gangue voltaram com força renovada e juntando praticamente todas as suas influencias: rock clássico, country, blues e punk rock. A produção um pouco mais sujinha se encaixa perfeitamente e potencializa as faixas, trazendo uma energia das apresentações ao vivo para as gravações de estúdio. Todas as músicas de trabalho estão logo no começo do disco (e são muito, muito boas), mas o lado b também merece atenção. "Over You" é sensacional e fecha o disco deixando o ouvinte querendo mais. Tomara que não demore outros 15 anos.

Já os Foo Fighters me surpreenderam com "Your Favorite Toy". Porque eles não lançavam nada realmente bom desde "Wasting Light", de 2011 (ou, para ser justo, do EP Saint Cecilia, de 2015). Mas também porque o single que dá nome ao álbum é bem ruim. A sorte é que todas as outras 9 musicas do disco são boas. Nem todas são ótimas, mas no skips. Os destaques são a porrada "Spit Shine", que mistura punk rock e berros a backing vocals melódicos no melhor estilo Kim Deal nos Pixies, a tensa e pausada "Child Actor", claramente uma analogia para a carreira do próprio Dave Grohl e sua dificuldade recente com o excesso de exposição e holofotes, e "Asking For A Friend", que fecha o disco indo de balada calminha a porradaria no final. O segundo single "Window" também tem seu charme, com sua melodia estilo "There's Nothing Left To Lose".

Entre bandas mais novas, o Grade 2 lançou o bom "Talk About It", que traz grande influencia de Rancid, assim como os discos anteriores já traziam. É punk rock bem melódico com pitadas de Oi! aqui e de ska ali. "Hanging On To You" é o destaque com seu refrão grudento e singalongs. Em seu 5º álbum, já da pra dizer que a banda não vai desenvolver um som próprio que seja inconfundível ou sua marca registrada, mas para quem gosta do estilo como eu, é um disco bem divertido que vale a pena ficar em rotação no carro.

Os canadenses do Riptides, que lançaram um dos melhores disco do ano passado, soltaram um novo EP esse ano chamado "Who goes There?". 4 músicas em 6 minutos e 15 segundos. Duas delas se destacam: "Dumb It Down" e "Bad Decisions". Na mesma pegada ramonescore, o Teenage Bottlerocket lançou o EP "The invisible man". Mas dessa vez eles pisaram no freio e trouxeram 4 músicas mais lentas, com uma certa melancolia nas melodias vocais e mais espaço para o baixo brilhar, principalmente em "You Made Me Get Called A Poser" e Pembrey's Face", as duas melhores faixas.

Com uma pegada mais skate punk, o Squirtgun voltou depois de muitos anos com o EP "Ghostly Sunflowers". Bom, são só 2 músicas, mas nenhuma delas é a música titulo então não da para chamar de single nem de saber qual faixa seria o lado a ou o lado b. Não importa, i guess. As 2 faixas são boas. "I'm The Ghost" é mais rápida e séria, "Sunflowers" é mais pop punk e ensolarada. Vale a pena ouvir ambas.

Ocupando o espaço entre o hardcore melódico, skate punk e pop punk, o Good Riddance lançou "Before The World Caves In". Um bom álbum, mas nada muito memorável. Deve ficar meio escondido na longa discografia da banda. Isso dito, vale escutar e colocar em alguma playlist as músicas "In Pieces", Devoid Of Faith" e "Drive Faster", a mais pop delas. Mas se você quiser algo mais hardcore, quase metal, o A Wilhelm Scream voltou à ativa e continuou de onde parou com o LP "Cheap Heat". Aqueles riffs rápidos e técnicos estão lá, os refrões nem sempre. De qualquer forma, é mais divertido que Propagandhi e duas faixas ficam na cabeça: "Poison II" e "I Got Tunnel Vision". A faixa de abertura Somebody's Gonna Die" também é empolgante.

No Brasil, os paulistanos do Em Chamas lançaram "Tied Up!", seu primeiro disco. 7 músicas em 15 minutos de puro hardcore em inglês, muito bem produzido. Se destacam as faixas "Old School Spirit" e "Welcome Sun". É isso. Não participo mais de perto do underground nacional e a informação não chega a quem não faz parte da cena. Talvez tenham outros disco bons de bandas brasileiras legais, mas eu simplesmente não sei.

De volta para o cenário internacional, mais precisamente ao mundo pós-hardcore, o Sparta lançou um "Cut A Silhouette". Destaque para "Everything You Say" e "Without Your Hands". Já o Quicksand lançou "Bring On The Psychics". Gostei da faixa-título e de "Cool Guy". De resto, os dois discos passam meio como música de fundo, um som legal mas que não faz você parar para escutar com mais atenção.

Já os canadenses do Flatliners continuam desafiando rótulos e mudando a cada disco. Dessa vez lançaram um disco mais hard rock que punk cheio de músicas com guitarras e vocais agressivos, mas sem inspiração ou energia e bem esquecíveis. Ainda assim se salvam "Good, You?", "Burn" e a esquisita e surpreendente "Pulpit". Da mesma forma, o Menzingers continuou seu caminho para longe do punk e em direção ao... dad rock, talvez? "Everything I Ever Saw" não é ruim nem bom e vai consolidando o apelido Mehzingers. Ainda assim, "Chance Encounters" e "Nobody's Heroes" se salvam e garantem seus lugares na tal playlist. Por pouco.

O Joyce Manor também lançou um novo disco, com 10 musicas em 19 minutos, apesar de não serem uma banda de grindcore ou street punk. Também são outro grupo que tem um pé no universo do punk rock, mas o resto do corpo é cada vez mais dad rock. De qualquer forma, "I Know Where Mark Chen Lives" se destaca muito e é de longe a melhor do disco. Playlist pra ela! 

Além disso, O Sugar voltou e lançou duas músicas. Boas, mas nada diferente do que Bob Mould vinha lançando em sua boa carreira solo. Vamos ver o que reservaram pra 2027. O Dillinger Four lançou o bom single "Don't Happy, Be Worry". O Basement lançou um disco que eu tentei ouvir várias vezes mas dormi em todas. De qualquer forma, o single "Wired" é legalzinho naquele estilo pós-grunge quase shoegaze que eles já traziam em seus últimos álbuns. O Superchunk lançou o single "I Don't Want You Anyway". Sempre bom, mas nada especial dessa vez. E o Afghan Whigs soltou o single "House of I", uma ótima música de uma banda a qual nunca dei muita atenção. Vale a pena ver o videoclipe.

No lado mais folk rock da força, a Courtney Barnett lançou o bom disco "Creature of Habit", com destaque para "Wonder", "Site Unseen" e "Mantis". Já Kurt Ville lançou "Philadelphia's Been Good to Me", com o bom single "Zoom 97". Honestamente não dediquei a esses lançamentos o tempo e atenção que eles mereciam, mas o ano só tem 8.760 horas. Uma pena, mas é como o universo funciona.

Ainda estamos no inicio de agosto, mas acho que já deu, né? O Dinosaur Jr. ainda deve lançar um disco mas, tirando isso, acho que 2026 já deu o que tinha que dar. A Copa do Mundo já acabou, ninguém merece a quantidade de lixo radioativo que vai explodir na nossa cara nesses eleições, podemos passar direto para a árvore enfeitada e o peru recheado, não? Virar a página? Bem vindo, 2027. Aqui no blog você já é realidade. Tchau! Alguém revisa esse texto, por favor. Alguém por aí?