sábado, 22 de agosto de 2026

O punk rock e a lista da Rolling Stone

No aniversário de 50 anos do lançamento do primeiro disco dos Ramones, considerado por muitos o marco zero do punk rock, a Rolling Stone lançou uma lista com os 100 melhores discos de punk escolhidos pelos jornalistas americanos da publicação. Minha maior critica é que a lista, obviamente, deveria ser de 50 álbuns, mas enfim...

Brincadeiras à parte, eu não vou entrar em polêmicas aqui, não tenho mais 15 anos de idade. Mas antes de continuar, tenho que fazer uma observação. Para qualquer lista do tipo, você tem que definir do que está falando. É de punk rock como um gênero musical? Ou como um movimento cultural? Se sim, qual? O de Nova Iorque? O de Londres? O dos anos 70? Ou os movimentos que nasceram desses durante os anos 80 e 90? Ou estamos falando de um estado de espirito? Uma atitude punk? Parece overthinking mas não é. Uma escolha faz você colocar Patty Smith no topo da lista, outra permite você incluir Paramore.

Minha lista não vai ter 50 discos porque sou hipócrita e preguiçoso, mas vou definir do que estou falando: de punk rock como um gênero guarda-chuva, embaixo do qual cabem todos os subgêneros que derivaram da musica punk original de 1976, com suas principais características: canções simples, relativamente curtas, com ritmo acelerado e bastante guitarra distorcida, tocada principalmente em power chords e sem muito virtuosismo. Claro que não precisa marcar todos esses boxes ao mesmo tempo, não se tratam de amarras (isso não seria nada punk), mas um guia geral da direção e do feeling da música.

Também não vou entrar em questões ideológicas, se fulano é um vendido, se não tem atitude, se é um poser, etc. Tirando nazis e o Supla, qualquer música com um som punk rock tá valendo. Tá bom, né? Então esses são os 10 melhores discos de punk rock, na minha humilde opinião (o que é um pouco diferente dos meus preferidos, ou os que eu mais escuto, mas enfim, deu de introdução infinita):

10 Millencolin - Pennybridge Pioneers (2000)

Nos anos 90, o som do skatepunk californiano viajou o mundo e encontrou uma casa acolhedora na suécia e na Burning Heart records. A melhor banda dessa cena foi o MIllencolin. Pennybridge Pioneers foi um disco de transição para a banda, que estava fazendo uma longa migração de um som super rápido, com um tanto de ska e humor, para algo um pouco mais lento, mais alternativo e mais sério tanto na sonoridade quanto nas ideias. No meio desse caminho eles fizeram um disco maravilhoso, que marcou o período e o subgênero tanto quanto os melhores álbuns de bandas estadunidenses. A produção de Brett Gurewitz, dono da Epitaph Records e compositor/ guitarrista do Bad Religion ajuda a dar um acabamento às músicas que faz elas se encaixarem perfeitamente no tracklist de qualquer Punk'O'Rama. Para ajudar a firmar o álbum no zeitgeist daquela cena, "No Cigar", a música que abre o disco, se tornou um clássico absoluto no jogo de videogame Tony Hawk's Pro Skater, ele mesmo um grande sucesso. Ou seja, ouvir os pioneiros de Örebro é ser transportado para a virada do milênio por pouco mais de meia hora. E depois apertar o repeat do discman.

09 The Clash - The Clash (1977)
Calma, calma... London Calling não é um disco de punk rock. Pronto, falei! É um ótimo disco, talvez um dos melhores discos. Merece estar no topo de muitas listas. Mas não tem mais 2 músicas punk, sendo gentil. Mas o primeirão é punk rock, sem dúvidas. E é bom demais! Da primeira a última faixa e sem pular nenhuma, o Clash ajuda a estabelecer as bases de um gênero musical que ainda estava nascendo e se entendendo. É político mas não é só isso: pode ser sobre amor ou frustrações individuais com a falta de empregos, ou mesmo contar histórias sobre
personagens urbanos. Mas sempre com o 'bullshit detector" ligado, sem dar espaço para o tradicionalismo, para os ricos e sua proximidade com o poder. Não, punk fala das ruas, do metrô lotado, da mãe que perdeu o filho pra uma guerra que ele não escolheu lutar em um lugar onde ela nunca nem ouviu falar. Musicalmente, o punk conversa com tipos mais antigos de rock e até com ritmos jamaicanos, mas o resultado tem que ser um pouquinho sujo, contrabalancear a doçura das melodias com o amargor das guitarras altas e da bateria marcada que não te deixa ficar sentado. Talvez os 3 acordes possam ser 4 ou até 5, mas o minimalismo dos Ramones tem que estar lá. E tudo isso está nesse álbum maravilhoso.

08 Ramones - Leave Home (1977)
Deveria estar mais perto do topo da lista? Os Ramones certamente, mas... Bom, tem um probleminha: Todos os 4 primeiros são ótimos, mas todos também são bem parecidos e até se misturam um pouco na minha cabeça. Eu culpo o It's Alive, melhor disco ao vivo do mundo exatamente por compilar as melhores (tipo 70% de todas as músicas) dos primeiros 4 discos dos Ramones. O primeirão podia então levar vantagem, justamente por ser o primeiro e ter praticamente inventado um novo gênero musical. Mas ele também é o que tem menos diversidade e a pior produção, e isso atrapalha um pouco. É para ser simples e direto e sujinho, mas não precisa também gravar o disco em meia hora e dentro de um latão de lixo do beco atrás do CBGB's. Já o segundo, Leave Home, trás uma produção melhor e mais diversidade das composições (dentro dos parâmetros ramônicos), sem deixar de entregar tudo o que o disco autointitulado entrega: uma aula de minimalismo, a energia e as guitarras marcantes, as melodias inspiradas nas musicas dos anos 50 e inicio dos 60, os vocais únicos de Joey, as letras perturbadas e engraçadas, que vão de geopolítica da guerra fria e cartas de amor a punks cheirando cola e pessoas recebendo tratamentos de choque e lobotomia em asilos mentais de filme de terror. E o tracklist é impecável, sem nenhum skip. Por tudo isso, acho Leave Home o melhor representante da primeira fase dos Ramones e da própria música punk ainda em formação.

07 Bad Religion - The Grey Race (1996)
Da mesma forma que os Ramones, o Bad Religion não tem um álbum que seja de longe o maior destaque da longa carreira. A banda tem 2 trilogias que demarcam aquelas que são consideradas as melhores fases da banda, entre 1988 e 1990, e entre 2002 e 2007. Perdido ali no meio está Grey Race, o primeiro disco da banda sem Mr. Brett, um dos dois compositores do grupo. O outro é o vocalista Greg Graffin, que talvez tenha sentido vontade de provar que poderia continuar sozinho e escreveu 15 músicas maravilhosas. Cerca de metade delas são mais velozes e a outra metade mais midtempo. Todas elas apostam nas melodias, nas harmonias vocais e em solos simples, curtos e bem encaixados, cortesia do recém chegado guitarrista, Brian Baker. Algumas deixam transparecer em suas melodias e batidas um toque de country, gênero que o vocalista também gosta muito. Nas letras, o Dr. Graffin, professor de biologia, brilha como sempre, evitando ser muito banal ou excessivamente direto, e apostando em reflexões e ideias filosóficas e cientificas para falar sobre temas caros a todas as bandas punk. Dá certo e produz um belo disco e uma das minhas músicas preferidas: Cease.

06 Offspring - Smash (1994)
Desculpa desapontar os puristas. Depois de 35 anos de carreira dá pra dizer com certeza que o Offspring não é uma das 10 melhores bandas punk da história, mas Smash é um dos 10 melhores discos e pertence a esse grupo seleto, sim. A melhor qualidade do álbum é que ele fica naquele ponto perfeito em que ainda é e soa underground o suficiente, com suas influencias de Agent Orange e TSOL, mas já tem aquele apelo pop que faz multidões pularem, entrarem na roda e cantarem juntas. Por isso, funciona como a ponte perfeita entre um som punk mais antigo, marcado pelas guitarras surf-punk ou árabe-punk de Kevin Noodles, e o skate punk mega veloz que foi a marca do gênero nos anos 90, especialmente na California, mas também no mundo. A primeira metade do disco é perfeita e levanta até cadaver. Destaque para as letras ainda politicamente incorretas e sarcásticas, que muitas vezes colocam Dexter Holland cantando do ponto de vista do motorista raivoso, do corno, do genocida, do gangueiro. A influencia é direta: Jello Biafra. Para além dessa peculiaridade, o mundo do qual Smash fala é dark, mas a música não. É pesada, veloz, energética e empolgante, mas dá ao ouvinte vontade de levantar e ir andar de skate nas ladeiras de LA, montar uma banda ou entrar numa roda-punk. Não é a toa que se trata do disco independente mais vendido da história dos EUA (e do mundo). Só não fica mais alto na lista porque a segunda metade não é perfeita como a primeira, apesar de ainda ser muito boa.

05 Dead Kennedys - Fresh Fruit For Rotten Vegetables (1980)
As guitarras surf-punk de East Bay Ray e os vocais debochados de Jello Biafra são o veiculo perfeito para as letras sarcásticas da banda, muitas vezes cantadas do ponto de vista de quem estão está criticando. E eles criticam muita gente! De políticos de direita a politicos de esquerda que não são assim tão diferentes dos de direita, até os donos de imóveis que eles sugerem que sejam linchados logo antes de um maravilhoso solo de guitarra totalmente surf rock que evoca ondas do pacífico. Também sobra pros liberais da São Francisco que é casa da banda. Em vez de elogios à contracultura e liberalismo social dos hippies, a banda sugere que o pessoal vá tirar umas férias no Camboja pra cair na real. E ainda há espaço para denúncias sobre guerra química, limpeza social e os excessos do mundo do entretimento, em uma releitura de Viva Las Vegas que abusa da ironia. Do inicio ao fim, o álbum é um pacote perfeito, veloz e furioso, que funciona como uma ponte sonora e estilística entre a 1ª e a 2ª onda punk. E o melhor/pior de tudo: ainda soa atual. Infelizmente California Uber Alles poderia trocar de CEP e denunciar o regime atual dos EUA com exatidão.

04 Sex Pistols - Never Mind The Bollocks (1977)
Eu sei, os Ramones e o Clash tem carreiras muito mais completas e interessantes, com muito mais musicas de destaque. Mas nunca fizeram um disco tão perfeito quanto o único disco de verdade dos Pistols. No skips, no filler, todas as musicas são destaque, o som é cheio e soa moderno até hoje, muito mais que qualquer outro álbum das bandas originais de 1977. Ainda guardando um pouco do som do rock de garagem do proto punk, as músicas soam agressivas e os vocais debochados de Johnny Rotten casam perfeitamente com o instrumental e com as letras sarcásticas e politicamente incorretas. O resultado é o disco que melhor representa o lado provocativo e niilista do punk. O veneno é direcionado contra quase tudo, mas atinge especialmente as tradições britânicas em geral, e
a monarquia e a rainha em particular, um fossil de um império moribundo que os Pistols queriam terminar de enterrar. Se não há futuro pra Inglaterra e pros ingleses, que se destrua tudo e dane-se. Talvez não funcione tão bem no mundo real, mas funciona perfeitamente ao longo dessas 11 músicas.

03 NOFX - Punk in Drublic (1994)
Sabe os temas dos quais o Green day fala em Dookie com uma leveza adolescente? Pois é, aqui eles não são leves nem adolescentes. Moradia precária quando você sai de casa vira squat ou crack house, maconha vira heroína, masturbação vira bdsm, o trabalho ruim no fast food do shopping vira prostituição. E a música acompanha essa tendencia. Até tem bastante pop punk em Punk in Drublic, mas é um pop punk mais sujo, com vocais mais ríspidos, bateria mais rápida e
guitarras mais pesadas, com influencia de metal. E logo o som vira skate punk e hardcore melódico. E tem até um pouco de ska. Ou seja, o estilo que definiu a cena californiana de punk rock rock dos anos 90. Dos vídeos de esportes radicais, dos X Games e dos videogames do Tony Hawk. Punk in Drublic é o melhor representante desse subgênero e da própria banda. O disco abre com o maior sucesso do grupo, "Linoleum", uma música que não tem refrão, nunca foi lançada como single ou ganhou um videoclipe. Assim é o NOFX. 17 músicas, 16 delas perfeitas (a outra é uma música piada, algo quase obrigatório em álbuns dos anos 90), com destaque para a maravilhosa "Lory Meyers".

02 Green Day - Dookie (1994)
Pop punk em estado puro. Simples, irreverente, empolgante. O que o Green Day faz em Dookie é aperfeiçoar o que já tinha feito nos seus 2 primeiros discos: pegar um tanto Ramones e Buzzcocks, adicionar um pouco de Husker Dü e Replacements, e filtrar tudo isso na sonoridade e produção do rock alternativo dos anos 90. Parece simples mas é muito difícil de acertar o ponto. E de criar melodias tão memoráveis, r
efrões pop perfeitos em músicas que grudam no ouvido, mas que ainda são rápidas, pesadas e roqueiras o suficiente para não soarem inofensivas. As letras exploram, com leveza e irreverencia, temas como coração quebrado, maconha, masturbação, o fim da adolescência, bissexualidade, moradia precária e problemas de saúde mental. O resultado é um disco divertido e cheio de energia, feito para ser ouvido em uma tarde de verão, mas sem esquecer que o mundo é meio errado, as pessoas meio esquisitas e tudo meio fora de lugar. Além de todas as clássicas (quase metade do álbum!), meu destaque vai para a esquecida Coming Clean.

01 Rancid - ... and out come the wolves (1995)
Disco perfeito do início ao fim, sem nenhuma música ruim e com hits imbatíveis. Refrões que não desgrudam da cabeça, riffs legais e um baixo absolutamente memorável ao longo de quase todas as 19 faixas. A alternância entre dois vocais com personalidades bem diferentes mas complementares também funciona muito bem. 
A produção é ótima, dando destaque para o maravilhoso baixo de Matt Freeman e soando polida o suficiente para que o disco seja acessível, mas sem limpar demais o som e dando espaço para a banda fazer o que faz melhor: navegar entre hardcore, oi!, punk 77, pop punk e ska de uma forma fluída, sem que você nem perceba direito que são estilos bem diferentes, que não deveriam funcionar tão bem juntos quanto funcionam nas músicas do Rancid. Para amarrar tudo, as letras do álbum contam histórias do underground da San Francisco Bay Area e de New York, com personagens que vão de criminosos comuns e pequenos mafiosos a punk rockers, moonstompers e rude girls perdidos pelos ônibus e arcades do lado b dos Estados Unidos. Irretocável.

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