sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Tirando o atraso: Filmes que eu deveria ter assistido 25 anos atrás

Antes do Pirate Bay, assistir filmes gringos independentes e obscuros sobre punk rock era quase impossível. Mas o mais frustrante nem era isso. O pior era ouvir falar desses filmes, ler sobre eles, e não ter nem onde procurar direito. Quando eu tinha por volta de uns 15 anos, eu deveria ter assistido alguns desses filmes, mas não tinha como. Depois, até tinha como, mas eu estava com uns 30 anos e, apesar de ainda curtir muito punk rock, o aspecto de rito de passagem do negócio já tinha ficado para trás. Então, não me esforcei para ir atrás deles navegando em águas internacionais, por assim dizer. Bom, as vezes a vida te dá uma segunda ou terceira ou quarta chance e você acaba trombando nas coisas sem querer. Nesse caso, foi no YouTube, of all places. Então agarrei essa oportunidade.

Mas antes de dar minhas opiniões irrelevantes sobre alguns desses filmes, é preciso fazer uma breve observação sobre o estado das coisas em 2026. Quando o streaming surgiu, a esperança era que as pessoas poderiam ter acesso a qualquer conteúdo que desejassem, na hora que quisessem. Depois, quando cada conglomerado de mídia resolveu criar sua própria plataforma de streaming, a esperança de poder ter acesso ao catálogo desses estúdios aumentou ainda mais, já que não seria mais necessário nem mesmo negociação de direitos. Mas não. Por algum motivo, essas plataformas simplesmente cagaram para seus próprios (muitas vezes premiados e históricos) catálogos de um tanto que agora podemos achar filmes subidos no YouTube de forma não oficial e os donos desses filmes sequer se dão ao trabalho de impor seu copyright. Dessa forma, versões em HD, com legendas em várias línguas estão disponíveis há anos para serem vistas de graça. Ok. Tá bom para mim, não vou reclamar. Mas é bem estranho.

Decline of the Western Civilization (1981)
O documentário essencial para entender o primeiro período da cena punk de Los Angeles, de 1979 até 1984. A estrutura do filme vai intercalando filmagens de shows de algumas bandas locais com entrevistas feitas tanto com as próprias bandas quanto com moleques da cena. Dessa ultima parte, ficaram famosos os curtos trecho com Pat Smear (Germs, Nirvana, Foo Fighters) e Flea (Red Hot Chilli Peppers), que na real não se destacam em relação aos outros entrevistados. Eram tão moleques e tão pouco articulados quanto os colegas.

Das entrevistas com bandas, dois momentos se destacaram para mim. Primeiro, a formação original do Black Flag mostrando seu espaço de moradia/ ensaios/ todo o resto. O "quarto" de Ron Reyes não passa de um armário semelhante aquelas moradias-caixão de Hong Kong. É tão triste quanto. Não importa se na California ou no sudeste da China, não há nada a se romantizar sobre a vida sem teto ou o squatting. Moradia é uma das necessidades mais básicas dos ser humano. Podem existir squats punks com iniciativas coletivas e horizontais legais em NYC, Londres ou Berlin, mas definitivamente não é o caso nesse doc.

A segunda é a entrevista com Darby Crash em sua cozinha fazendo um ovo, mostrando sua aranha de estimação e contando umas histórias meio sem nexo. Dá para ver o trainwreck prestes a acontecer. O humor autodepreciativo é até engraçado e tem seu charme, mas o teor nonsense e depressivo das falas do vocalista do Germs também me deixou meio triste. Vício em heroína não é uma parada muito divertida e a entrevista me lembrou uma feita com Kurt e Courtney em 1994 enquanto eles "cuidavam" da bebê Frances Bean pior que Darby preparava um ovo. Triste. E um clima pesado, deprê.

Sobre os shows em si, honestamente o melhor era o do Fear, uma banda meio esquecida sem um grande disco ou hit underground. No entanto era a banda mais pronta para ao mesmo tempo tocar punk rock e criar uma atmosfera punk, aquele ar de perigo que vem da música em si mas principalmente do vocalista antagonizando o público e praticamente incitando uma confusão generalizada. Sinceramente bom. Também achei o show do X legalzinho, com uma pegada mais art punk. Do lado negativo, se destacou para mim a apresentação do Germs. Tá pra rir um pouquinho por um minuto, mas é inassistível em sua totalidade.

No final das contas, não fiquei com inveja não. Não é uma cena que eu queria ter feito parte ou que eu tenha ficado interessado em ver muito mais. O que veio antes era mais legal. O que veio depois também.

Decline of the Western Civilization III (1998)
A diretora Penelope Spheers volta a cena punk de Los Angeles para retratar as mudanças ou atualizar o olhar documental. Do ponto de vista musical, o filme é um fracasso completo. Não captura nenhuma banda relevante, que estivesse em seu auge criativo ou que seja lembrada por qualquer um 2026. Isso foi um pouco de propósito, uma vez que o punk rock um pouco mais palatável tinha explodido comercialmente com o sucesso de bandas da Epitaph após a explosão do Offspring. Então, faz sentido que ela tenha procurado retratar bandas que estivessem em um patamar mais próximo dos punks que ela vai entrevistar. Mas ainda assim, o filme não tem nenhuma da relevância musical que o original tinha.

Da mesma forma, a diretora não entrevista punk rockers mais coxinhas, que apenas molham um pé no oceano do estilo de vida punk. O foco das lentes se vira para os gutter punks, os moleques que vivem em squats, punk houses ou na rua meio, em becos e calçadas. Como se pode imaginar, há muito alcoolismo e vicio em drogas pesadas, além de uma atitude compreensivamente niilista em relação a tudo, inclusive às suas próprias vidas. Não é engraçado, nem tenta ser. A diretora as vezes é direta até demais, quase confrontando os entrevistados, mas dado o contexto bruto de tudo, ninguém parece se incomodar muito e ela consegue respostas que parecem sinceras sobre histórias de fida bem tristes.

Para fechar o filme, um moleque que tinha sido recém apresentado morre quando a casa semi abandonada onde alguns punks moram pega fogo no meio da noite e ele não consegue sair. Um dos moleques diz ter tentado acordá-lo, mas ele estava apagado, muito bêbado ou, provavelmente, drogado. É um final chocante e triste como a vida desses adolescentes que muitas vezes preferiram viver nas ruas do que na situação em que estavam. No final, esse terceiro filme da série não consegue capturar muito sobre o punk rock como música ou sobre o movimento punk como um conjunto de ideias. Consegue apenas jogar um aluz sobre essa intercessão entre o punk e adolescentes sem teto na capital mundial do entretenimento.

Suburbia (1983)
Um clássico que todos dizem representar bem a vida de jovens punks da grande Los Angeles no inicio dos anos 80, até por
ser dirigido pela mesma diretora dos documentários Decline of the Western Civilization e usar moleques da cena punk como atores (incluindo Flea, baixista do Red Hot Chilli Peppers). O resultado é pesado e triste, principalmente no final.

A história apresenta um adolescente que foge de casa e da mãe alcoólatra. Ele não sabe para onde ir até ser resgatado por um punk alguns anos mais velho, que o leva para a casa onde ele mesmo e outros moleques em situação parecida vivem. O lugar é parte de um conjunto de imóveis abandonados e largados pela prefeitura de um subúrbio não identificado de LA.

Os jovens vivem de pequenos roubos a casas de classe média da cidade e não fazem muito da vida além de assistir TV e criar confusão por onde andam. Coisas pequenas tipo tacar garrafas de vidro em paredes, mijar no jardim das casas, andar por cima de carros chiques, cuspir em vitrines e coisas do tipo. Uma vida bem vazia e sem sentido, mas menos pior do que a situação que tinham antes. No meio do caminho, um dos moleques busca sei irmão mais novo, ainda um criança, e o leva para viver no squat. Uma das punks também é apresentada com mais profundidade. Trata-se de uma vitima de estupro que convive com o trauma sem nenhum apoio especializado e termina se suicidando.

Curiosamente, os antagonistas da história não são os policiais, que deixam os jovens punks em paz por ter mais o que fazer, não se importarem o suficiente, e porque um deles é pai adotivo de um dos moleques. O cara até tenta convencer o personagem a voltar para casa, mas não consegue. Então, frente a falta de ação do governo, um grupo de moradores resolve tomar uma atitude e formar um grupo armado para resolver a situação. Claro que dá merda e no meio do confronto entre os rednecks armados e os punks com táticas e armas improvisadas, o moleque punk pequeno acaba morrendo atropelado. Honestamente nem lembro direto o que acontece depois, qual é o epilogo e coisa e tal.

Minha impressão é que a cena punk de Los Angeles do finalzinho dos anos 70 e inicio dos 80 era violenta, triste e muito vazia de qualquer tipo de ambição artística ou ideológica. Não sei se a cena de Nova Iorque também era assim, até porque existe um período de transição entre a cena original da revista Punk, dos Ramones e dos art punks em torno do CBGBs e a cena do Agnostic Front e outras bandas de NYHC e crossover thrash. 

Já a cena de DC tinha todo o tipo de ideais em torno da gravadora Dischord Records, do straight edge ao DYI anticapitalista e feminista. Talvez ali o problema fosse o oposto: em vez de ser vazio, ser cheio demais de regras de conduta. E a cena londrina também era bem diferente, girando em trono do Oi! e do Hardcore D-beat e dividida entre os racistas alinhados com o National Front e os antiracistas alinhados com a tradição skinhead original jamaicana. Enfim, tirando um grande disco dos Adolescents, meu interesse em LA só vai voltar na virada para os anos 90 e a ascensão do Bad Religion e da Epitaph Records.

SubUrbia (1996)
Não há nenhuma conexão direta desse filme com o outro de mesmo nome. Se o filme de 1983 era semiamador e focava em adolescentes de classe trabalhadora perdidos em áreas esquecidas de uma grande metrópole, esse é uma produção hollywoodiana que foca em jovens adultos de classe média perdidos em um strip mall de uma cidade pequena. Todos eles têm dead end jobs que odeiam, mas boa parte do seu tempo é gasto ficando bêbados ao lado de uma loja de conveniência, no meio de um gigantesco estacionamento onde também se encontram um posto de gasolina, uma loja de bebida alcoólicas, um fast food genérico e uma lavanderia. É um cenário distópico, não de uma forma futurista, mas como símbolo do que deu errado no modelo de expansão das cidades americanas no pós-guerra.

Visualmente, é perceptível a tentativa de capturar o visual alternativo do meio dos anos 90. O look dos protagonistas é muito inspirado no Green Day. O trailer quase parece um videoclipe esquecido da banda lançado entre When I come Around e Walking Contradiction. Jeff é Billie Joe (o artista atormentado que overthink tudo), Tim é Mike Dirnt (o punk reservado), e Buff é Tre Cool (o comediante hiperativo que não para de fazer macaquices). Mas as comparações meio que param por aí também. Não é algo tão profundo assim.

Isso não significa que alguns dos personagens não tentem ser profundos. Sooze é namorada de Jeff, uma artista feminista amadora que quer ir para Nova Iorque viver das suas pinturas e performances. Ela executa uma dessas performances, meio dança e sapateado meio spoken word terrivelmente cliché. Acho que era para ser engraçado mas só da muita vergonha alheia mesmo.

Durante o filme ela dá um pé na bunda de Jeff e vai para Los Angeles com Pony, o único da turma que de fato saiu da cidadezinha e foi fazer musica profissionalmente. Ele está a beira de estourar de verdade mas passa pelo antigo ponto de encontro para ver os antigos amigos. Eles se dão bem porque são os únicos que não parecem cronicamente depressivos ou com uma visão niilista da vida aos vinte e pouco anos.

Jeff é um músico que não tenta mais tocar, não tenta arrumar um trabalho melhor para sair da casa dos pais, não apoia a ideia da namorada de se mudar, não consegue ficar feliz pelo amigo que conseguiu algum sucesso, não ve sentido no american way of life mas participa dele na inercia e reclama de tudo mas não age para mudar nada. É um niilismo depressivo de alguém que é inteligente mas que usa essa qualidade apenas para pensar demais e discutir por tudo em uma mesa de fast food.

Já Tim é um niilista mais Sid Vicious. Antigo quarteback do time da escola que não tinha o que fazer depois da formatura, se alistou no exercito para "ir ver o mundo e ter aventuras" (a ideia mais americana e mais estúpida do mundo), só para terminar cortando a ponta do próprio dedo fora para ser dispensado e receber um beneficio mensal qualquer.

Diferente de Jeff, Tim leva mais a serio a ideia de que se nada tem significado ou valor e se ele e a sociedade não têm futuro, é melhor tacar fogo na porra toda. Mas ele não tem nenhuma grande ideia para destruir o sistema nem nada assim. Ele se contenta em antagonizar todo mundo com uma atitude babaca e em ser racista com o dono e atendente da loja de conveniência, uma paquistanês chamado Nazeer, que já está mais do que de saco cheio de e dos amigos. Além de xingar e tentar partir para cima do migrante, ele arruma até uma arma para escalar a briga depois de ser preso por algumas horas por beber em público ou qualquer bobagem do tipo. Dá para ver que Tim vai terminar a vida preso ou morto após cometer algum crime idiota just because.

Buff é completamente idiota e parece nunca ter saído da quinta série. Às vezes parece até ter algum tipo de retardo mental. E por ultimo temos Bee Bee, a amiga de Sooze. Ela é uma alcoólatra em recuperação que se coloca sempre em segundo plano, escondida não por timidez ou para parecer misteriosa, mas por não fazer parte do grupo mas também porque a saúde mental dela está por um fio. No final do filme, ela finalmente fica sob os holofotes ao sofrer uma overdose e ser encontrada a beira da morte no telhado da loja de conveniência.

Não é um filme engraçado. também não é exatamente triste. Também não te deixa com raiva. Em vez disso, te deixa com uma sensação de vazio. Nesse sentido ele consegue com sucesso fazer o espectador ter uma ideia de quão vazia é a vida e a noite dos protagonistas. Dá mesma forma que o strip mall suburbano em que vivem, a vida deles poderia ser objetivamente muito pior, mas é meio deprimente mesmo assim.

SLC Punk (1998)
É uma comédia meio caricatural e boa exatamente por isso. Pelo exagero dos personagens e situações, que deixam o filme engraçado e leve. As reflexões mais interessantes sobre o movimento punk e sobre crescimento ficam em segundo plano, mas não escondidos, o que funciona bem. O personagem principal é Stevo, que muitas vezes quebra a 4ª parede e fala com espectadores, tem todo tipo de reflexões sobre a sua vida e sobre o punk. quem está assistindo, também tem. Essas são as minhas, em resumo:

Não é a toa que a maioria dos punks de 77 e do inicio dos anos 80 eram adolescentes ou, no máximo, tinham 20 e poucos anos. Quando tinham mais, quase sempre eram pessoas em situações muito precárias de vida. Gutter punks sem teto convivendo com alcoolismo e vicio em drogas, na maioria das vezes. É muito difícil ser um punk de moicano, coturno, calças rasgadas e jaqueta de couro com spikes quando se tem um emprego, filhos, se cuida dos pais idosos, paga boletos e vai ao mercado comprar itens de higiene pessoal antes de passar na reunião de condomínio. Não é impossível, mas é difícil. Geralmente quem consegue é quem tem muito pouco a perder na vida, o que não é o caso do protagonista do filme.

A ideia pode parecer careta ou até reacionária, mas não precisa ser. É verdade que a maioria das pessoas que um dia se disseram punks ou que cresceram com punk rock e fazendo parte de alguma cena punk não chegam aos 30 com uma atitude niilista, falando em derrubar o sistema ou viver uma vida anarquista. Mas podem incorporar no seu dia a dia pequenas lições ensinadas a elas pelo punk. E muitas vezes fazem. Seja vivendo a vida sem idolatrar ninguém, sem procurar por heróis ou salvadores de qualquer tipo, seja trabalhando em um esquema de cooperativa, seja tendo casamentos de alguma maneira não convencionais, seja ensinando a ética do faça você mesmo para seus filhos, seja apenas evitando levar uma vida que valorize de forma exagerada o dinheiro e a busca pela riqueza.

Tem quem acha que essa visão transigente do punk é vendida, ou burguesa ou sei lá o que. Entendo que um dos punks do Decline of the Western Civilization pense assim de mim ou do Stevo. Mas eu não acho. O que eu acho é que fazer concessões é necessário para viver bem. O truque está em achar onde desenhar a linha. E saber de que lado você não vai se sentir mal de pisar, onde vai conseguir dormir bem e feliz, sem se machucar, sem contradizer seus próprios ideais.

Nesse sentido SLC punk é bem maduro, apesar do tom exagerado e caótico da filmagem e edição. Apesar da história terminar de forma triste, com a morte do melhor (único?) amigo de Stevo, Bob Heroína, foi o único desses filmes que não me deixou meio para baixo depois de assistir. Não sei se isso faz dele menos punk.

This is England (2006)
Ufa! Saímos dos EUA e podemos ter uma visão diferente do punk. This is England conta a história de Shaun, um moleque de 12 anos que perdeu o pai na Guerra das Malvinas. Desde o inicio do filme ele demonstra ter uma raiva semi reprimida que explode quando ele é provocado na escola, na loja de conveniência ou na rua, por um grupo de skinheads liderados por Woody, que parecem ser uns 10 anos mais velhos que ele, mas o acolhem mesmo assim, como um mascote. Shaun se se bem por ser parte de algo e ter para onde direcionar sua energia, em pequenos atos de vandalismo.

A falta de acesso à terapia e a uma forma produtiva de processar o luto ou traumas, leva muita gente a lidar com esses sentimentos de forma autodestrutiva. Também faz as pessoas procurarem acolhimento em grupos de gente com problemas similares. Durante o final dos anos 70 e inicio dos 80, muitas vezes eram grupos de punks ou de skinheads. O filme é bem realista nesse sentido e também demonstra que esse sentimento de pertencimento e irmandade por der algo positivo ou negativo. No caso de Shaun, é inicialmente algo bom, mas depois vai dar errado e levar ele ser influenciado por más pessoas.

No enredo do filme, esse personagem é Combo, um skinhead que liderava o antigo grupo do qual Woody fazia parte e agora saiu da prisão e logo de cara demonstra que vai tentar tomar conta desse novo grupo também. Além de demonstrate um certo carisma e comandar atenção, Combo tenta conquistar o grupo apresentando a eles uma missão, um conjunto de ideias para guiar suas ações: o nacionalismo inglês. As ideias racistas e xenófobas que colocam a culpa de todos os problemas do país e da vida da classe trabalhadora nos imigrantes, sejam jamaicanos, sejam paquistaneses e indianos.

De novo, o roteiro é muito calcado na realidade, na forma como esse neofascismo do partido National Front conquistou uma parte considerável da working class inglesa, francesa e de outros países da Europa, e que agora mostra sua face de novo nos EUA por meio da figura de um playboy herdeiro bilionário que se apresenta como outsider e dá vazão a raiva e frustrações de pessoas brancas de todas as classes sociais por meio de falas e ações racistas e anti migração, além de atacar os pilares da democracia, enquanto promove um conservadorismo religioso que se opõe à modernidade e à ciência. Tudo isso é resumido por meio de slogans nacionalistas como America First e fascistas como Make America Great Again, que demonstra uma vontade de voltar a um passado idealizado onde a nação teria sido grande.

No filme, isso é mostrado em sua faceta mais banal e pé no chão. O grupo de se divide entre quem não quer saber das ideias de Combo e quem vê nelas, e na figura dele, uma caminho para dar vazão às próprias frustrações; Infelizmente Shaun decide ficar com Combo e começa a ser doutrinado e radicalizado por ele. No entanto, apesar de mostrar o novo grupo cometendo atos de vandalismo e ameaçando o dono paquistanês da loja de conveniência, o foco acaba sendo em como Combo vira uma figura paterna pra o moleque, um modelo de masculinidade, o que talvez seja ainda pior que as ideias nacionalistas e racistas.

Esse foco em um grupo pequeno de jovens entre 12 e vinte e muitos anos também serve como uma amostra do que aconteceu com a cultura skinhead britânica, dividida entre aqueles que continuaram seguindo as tradições dos skinheads e rude boys jamaicanos que deram origem ao movimento, e aqueles que a transformaram em algo ligado ao nacionalismo, à xenofobia, e em ultima instancia, ao neonazismo.

No final das contas, Combo acaba perdendo a cabeça depois de ser rejeitado pela namorada de Woody, com quem ele tinha se envolvido brevemente antes de ser preso. Após pressionar Milky, o único skin negro do grupo antigo a conseguir maconha, os dois vão para a casa de Combo que, no meio da festa, fica com inveja da família de Milky e, em um acesso de raiva, espanca o migrante jamaicano na frente de Shaun e dos outros membros da sua própria gangue. O crime parece ser o ultimo prego no caixão do grupo, apesar do filme não deixar claro o que acontece depois.

Da mesma forma que vários dos outros filmes que eu comentei aqui, o sentimento que prevalece para mim é a tristeza, mas do que a revolta contra os personagens racistas e violentos. As cidades são tristes, as famílias são tristes, até os crimes são tristes, meio deprimentes. No caso de skinheads, a trilha sonora de toda essa tristeza é o punk rock oi! e o reggae. A primeira faz um apelo a irmandade e convida todos no pub a cantar junto sobre os working class heroes como o pai de Shaun. A segunda é um link permanente com as raízes jamaicanas do movimento, mesmo quando é escutada pelo lado racista do movimento, em um anacronismo que demonstra o quanto as pessoas e as sociedade podem ser hipócritas. 

Para mim, a sensação que fica é que o Joy Division é quem melhor capturou em música a atmosfera da Inglaterra do inicio dos anos 80. E This is England capturou bem em filme o estado de espirito do país no mesmo período.

sábado, 22 de agosto de 2026

O punk rock e a lista da Rolling Stone

No aniversário de 50 anos do lançamento do primeiro disco dos Ramones, considerado por muitos o marco zero do punk rock, a Rolling Stone lançou uma lista com os 100 melhores discos de punk escolhidos pelos jornalistas americanos da publicação. Minha maior critica é que a lista, obviamente, deveria ser de 50 álbuns, mas enfim...

Brincadeiras à parte, eu não vou entrar em polêmicas aqui, não tenho mais 15 anos de idade. Mas antes de continuar, tenho que fazer uma observação. Para qualquer lista do tipo, você tem que definir do que está falando. É de punk rock como um gênero musical? Ou como um movimento cultural? Se sim, qual? O de Nova Iorque? O de Londres? O dos anos 70? Ou os movimentos que nasceram desses durante os anos 80 e 90? Ou estamos falando de um estado de espirito? Uma atitude punk? Parece overthinking mas não é. Uma escolha faz você colocar Patty Smith no topo da lista, outra permite você incluir Paramore.

Minha lista não vai ter 50 discos porque sou hipócrita e preguiçoso, mas vou definir do que estou falando: de punk rock como um gênero guarda-chuva, embaixo do qual cabem todos os subgêneros que derivaram da musica punk original de 1976, com suas principais características: canções simples, relativamente curtas, com ritmo acelerado e bastante guitarra distorcida, tocada principalmente em power chords e sem muito virtuosismo. Claro que não precisa marcar todos esses boxes ao mesmo tempo, não se tratam de amarras (isso não seria nada punk), mas um guia geral da direção e do feeling da música.

Também não vou entrar em questões ideológicas, se fulano é um vendido, se não tem atitude, se é um poser, etc. Tirando nazis e o Supla, qualquer música com um som punk rock tá valendo. Tá bom, né? Então esses são os 10 melhores discos de punk rock, na minha humilde opinião (o que é um pouco diferente dos meus preferidos, ou os que eu mais escuto, mas enfim, deu de introdução infinita):

10 Millencolin - Pennybridge Pioneers (2000)
Nos anos 90, o som do skatepunk californiano viajou o mundo e encontrou uma casa acolhedora na Suécia e na Burning Heart records. A melhor banda dessa cena foi o MIllencolin. Pennybridge Pioneers foi um disco de transição para a banda, que estava fazendo uma longa migração de um som super rápido, com um tanto de ska e humor, para algo um pouco mais lento, mais alternativo e mais sério tanto na sonoridade quanto nas ideias. No meio desse caminho eles fizeram um disco maravilhoso, que marcou o período e o subgênero tanto quanto os melhores álbuns de bandas estadunidenses. A produção de Brett Gurewitz, dono da Epitaph Records e compositor/ guitarrista do Bad Religion ajuda a dar um acabamento às músicas que faz elas se encaixarem perfeitamente no tracklist de qualquer Punk'O'Rama. Para ajudar a firmar o álbum no zeitgeist daquela cena, "No Cigar", a música que abre o disco, se tornou um clássico absoluto no jogo de videogame Tony Hawk's Pro Skater, ele mesmo um grande sucesso. Ou seja, ouvir os pioneiros de Örebro é ser transportado para a virada do milênio por pouco mais de meia hora. E depois apertar o repeat do discman.

09 The Clash - The Clash (1977)
Calma, calma... London Calling não é um disco de punk rock. Pronto, falei! É um ótimo disco, talvez um dos melhores discos. Merece estar no topo de muitas listas. Mas não tem mais 2 músicas punk, sendo gentil. Mas o primeirão é punk rock, sem dúvidas. E é bom demais! Da primeira a última faixa e sem pular nenhuma, o Clash ajuda a estabelecer as bases de um gênero musical que ainda estava nascendo e se entendendo. É político mas não é só isso: pode ser sobre amor ou frustrações individuais com a falta de empregos, ou mesmo contar histórias sobre
personagens urbanos. Mas sempre com o 'bullshit detector" ligado, sem dar espaço para o tradicionalismo, para os ricos e sua proximidade com o poder. Não, punk fala das ruas, do metrô lotado, da mãe que perdeu o filho pra uma guerra que ele não escolheu lutar em um lugar onde ela nunca nem ouviu falar. Musicalmente, o punk conversa com tipos mais antigos de rock e até com ritmos jamaicanos, mas o resultado tem que ser um pouquinho sujo, contrabalancear a doçura das melodias com o amargor das guitarras altas e da bateria marcada que não te deixa ficar sentado. Talvez os 3 acordes possam ser 4 ou até 5, mas o minimalismo dos Ramones tem que estar lá. E tudo isso está nesse álbum maravilhoso.

08 Ramones - Leave Home (1977)
Deveria estar mais perto do topo da lista? Bom, tem um probleminha: Todos os 4 primeiros são ótimos, mas todos também são bem parecidos e até se misturam um pouco na minha cabeça. Eu culpo o It's Alive, melhor disco ao vivo do mundo exatamente por compilar as melhores músicas dos primeiros 4 discos dos Ramones. O primeirão podia então levar vantagem, justamente por ser o primeiro e ter praticamente inventado um novo gênero musical. Mas ele também é o que tem menos diversidade e a pior produção, e isso atrapalha um pouco. É para ser simples e direto e sujinho, mas não precisa também gravar o disco em meia hora e dentro de um latão de lixo do beco atrás do CBGB's. Já o segundo, Leave Home, trás uma produção melhor e mais diversidade das composições (dentro dos parâmetros ramônicos), sem deixar de entregar tudo o que o disco autointitulado entrega: uma aula de minimalismo, a energia e as guitarras marcantes, as melodias inspiradas nas musicas dos anos 50 e inicio dos 60, os vocais únicos de Joey, as letras perturbadas e engraçadas, que vão de geopolítica da guerra fria e cartas de amor a punks cheirando cola e pessoas recebendo tratamentos de choque e lobotomia em asilos mentais de filme de terror. E o tracklist é impecável, sem nenhum skip. Por tudo isso, acho Leave Home o melhor representante da primeira fase dos Ramones e da própria música punk ainda em formação.

07 Bad Religion - The Grey Race (1996)
Da mesma forma que os Ramones, o Bad Religion não tem um álbum que seja de longe o maior destaque da longa carreira. A banda tem 2 trilogias que demarcam aquelas que são consideradas as melhores fases da banda, entre 1988 e 1990, e entre 2002 e 2007. Perdido ali no meio está Grey Race, o primeiro disco da banda sem Mr. Brett, um dos dois compositores do grupo. O outro é o vocalista Greg Graffin, que talvez tenha sentido vontade de provar que poderia continuar sozinho e escreveu 15 músicas maravilhosas. Cerca de metade delas são mais velozes e a outra metade mais midtempo. Todas elas apostam nas melodias, nas harmonias vocais e em solos simples, curtos e bem encaixados, cortesia do recém chegado guitarrista, Brian Baker. Algumas deixam transparecer em suas melodias e batidas um toque de country, gênero que o vocalista também gosta muito. Nas letras, o Dr. Graffin, professor de biologia, brilha como sempre, evitando ser muito banal ou excessivamente direto, e apostando em reflexões e ideias filosóficas e cientificas para falar sobre temas caros a todas as bandas punk. Dá certo e produz um belo disco e uma das minhas músicas preferidas: Cease.

06 Offspring - Smash (1994)
Desculpa desapontar os puristas. Depois de 35 anos de carreira dá pra dizer com certeza que o Offspring não é uma das 10 melhores bandas punk da história, mas Smash é um dos 10 melhores discos e pertence a esse grupo seleto, sim. A melhor qualidade do álbum é que ele fica naquele ponto perfeito em que ainda é e soa underground o suficiente, com suas influencias de Agent Orange e TSOL, mas já tem aquele apelo pop que faz multidões pularem, entrarem na roda e cantarem juntas. Por isso, funciona como a ponte perfeita entre um som punk mais antigo, marcado pelas guitarras surf-punk ou árabe-punk de Kevin Noodles, e o skate punk mega veloz que foi a marca do gênero nos anos 90, especialmente na California, mas também no mundo. A primeira metade do disco é perfeita e levanta até cadaver. Destaque para as letras ainda politicamente incorretas e sarcásticas, que muitas vezes colocam Dexter Holland cantando do ponto de vista do motorista raivoso, do corno, do genocida, do gangueiro. A influencia é direta: Jello Biafra. Para além dessa peculiaridade, o mundo do qual Smash fala é dark, mas a música não. É pesada, veloz, energética e empolgante, mas dá ao ouvinte vontade de levantar e ir andar de skate nas ladeiras de LA, montar uma banda ou entrar numa roda-punk. Não é a toa que se trata do disco independente mais vendido da história dos EUA (e do mundo). Só não fica mais alto na lista porque a segunda metade não é perfeita como a primeira, apesar de ainda ser muito boa.

05 Dead Kennedys - Fresh Fruit For Rotten Vegetables (1980)
As guitarras surf-punk de East Bay Ray e os vocais debochados de Jello Biafra são o veiculo perfeito para as letras sarcásticas da banda, muitas vezes cantadas do ponto de vista de quem estão está criticando. E eles criticam muita gente! De políticos de direita a politicos de esquerda que não são assim tão diferentes dos de direita, até os donos de imóveis que eles sugerem que sejam linchados logo antes de um maravilhoso solo de guitarra totalmente surf rock que evoca ondas do pacífico. Também sobra pros liberais da São Francisco que é casa da banda. Em vez de elogios à contracultura e liberalismo social dos hippies, a banda sugere que o pessoal vá tirar umas férias no Camboja pra cair na real. E ainda há espaço para denúncias sobre guerra química, limpeza social e os excessos do mundo do entretimento, em uma releitura de Viva Las Vegas que abusa da ironia. Do inicio ao fim, o álbum é um pacote perfeito, veloz e furioso, que funciona como uma ponte sonora e estilística entre a 1ª e a 2ª onda punk. E o melhor/pior de tudo: ainda soa atual. Infelizmente California Uber Alles poderia trocar de CEP e denunciar o regime atual dos EUA com exatidão.

04 Sex Pistols - Never Mind The Bollocks (1977)
Eu sei, os Ramones e o Clash tem carreiras muito mais completas e interessantes, com muito mais musicas de destaque. Mas nunca fizeram um disco tão perfeito quanto o único disco de verdade dos Pistols. No skips, no filler, todas as musicas são destaque, o som é cheio e soa moderno até hoje, muito mais que qualquer outro álbum das bandas originais de 1977. Ainda guardando um pouco do som do rock de garagem do proto punk, as músicas soam agressivas e os vocais debochados de Johnny Rotten casam perfeitamente com o instrumental e com as letras sarcásticas e politicamente incorretas. O resultado é o disco que melhor representa o lado provocativo e niilista do punk. O veneno é direcionado contra quase tudo, mas atinge especialmente as tradições britânicas em geral, e
a monarquia e a rainha em particular, um fossil de um império moribundo que os Pistols queriam terminar de enterrar. Se não há futuro pra Inglaterra e pros ingleses, que se destrua tudo e dane-se. Talvez não funcione tão bem no mundo real, mas funciona perfeitamente ao longo dessas 11 músicas.

03 NOFX - Punk in Drublic (1994)
Sabe os temas dos quais o Green day fala em Dookie com uma leveza adolescente? Pois é, aqui eles não são leves nem adolescentes. Moradia precária quando você sai de casa vira squat ou crack house, maconha vira heroína, masturbação vira bdsm, o trabalho ruim no fast food do shopping vira prostituição. E a música acompanha essa tendencia. Até tem bastante pop punk em Punk in Drublic, mas é um pop punk mais sujo, com vocais mais ríspidos, bateria mais rápida e
guitarras mais pesadas, com influencia de metal. E logo o som vira skate punk e hardcore melódico. E tem até um pouco de ska. Ou seja, o estilo que definiu a cena californiana de punk rock rock dos anos 90. Dos vídeos de esportes radicais, dos X Games e dos videogames do Tony Hawk. Punk in Drublic é o melhor representante desse subgênero e da própria banda. O disco abre com o maior sucesso do grupo, "Linoleum", uma música que não tem refrão, nunca foi lançada como single ou ganhou um videoclipe. Assim é o NOFX. 17 músicas, 16 delas perfeitas (a outra é uma música piada, algo quase obrigatório em álbuns dos anos 90), com destaque para a maravilhosa "Lory Meyers".

02 Green Day - Dookie (1994)
Pop punk em estado puro. Simples, irreverente, empolgante. O que o Green Day faz em Dookie é aperfeiçoar o que já tinha feito nos seus 2 primeiros discos: pegar um tanto Ramones e Buzzcocks, adicionar um pouco de Husker Dü e Replacements, e filtrar tudo isso na sonoridade e produção do rock alternativo dos anos 90. Parece simples mas é muito difícil de acertar o ponto. E de criar melodias tão memoráveis, r
efrões pop perfeitos em músicas que grudam no ouvido, mas que ainda são rápidas, pesadas e roqueiras o suficiente para não soarem inofensivas. As letras exploram, com leveza e irreverencia, temas como coração quebrado, maconha, masturbação, o fim da adolescência, bissexualidade, moradia precária e problemas de saúde mental. O resultado é um disco divertido e cheio de energia, feito para ser ouvido em uma tarde de verão, mas sem esquecer que o mundo é meio errado, as pessoas meio esquisitas e tudo meio fora de lugar. Além de todas as clássicas (quase metade do álbum!), meu destaque vai para a esquecida Coming Clean.

01 Rancid - ... and out come the wolves (1995)
Disco perfeito do início ao fim, sem nenhuma música ruim e com hits imbatíveis. Refrões que não desgrudam da cabeça, riffs legais e um baixo absolutamente memorável ao longo de quase todas as 19 faixas. A alternância entre dois vocais com personalidades bem diferentes mas complementares também funciona muito bem. 
A produção é ótima, dando destaque para o maravilhoso baixo de Matt Freeman e soando polida o suficiente para que o disco seja acessível, mas sem limpar demais o som e dando espaço para a banda fazer o que faz melhor: navegar entre hardcore, oi!, punk 77, pop punk e ska de uma forma fluída, sem que você nem perceba direito que são estilos bem diferentes, que não deveriam funcionar tão bem juntos quanto funcionam nas músicas do Rancid. Para amarrar tudo, as letras do álbum contam histórias do underground da San Francisco Bay Area e de New York, com personagens que vão de criminosos comuns e pequenos mafiosos a punk rockers, moonstompers e rude girls perdidos pelos ônibus e arcades do lado b dos Estados Unidos. Irretocável.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

2026: O ROCK AINDA RESPIRA ou COMO SE FAZ ISSO MESMO?

Desde 1950 e muito se discute se o rock morreu. Desde então a resposta é: depende. Se você estiver falando estritamente do rock n roll estadunidense dos anos 50, a resposta é sim. Bom, mais ou menos, mas meio que sim. O que veio depois, seja a invasão britânica ou o rock dos hippies da geração Woodstock definitivamente não era a mesma coisa. Dos anos 70 para a frente então, nem se fala. Mas claro que o rock não morreu. Sob qualquer outro enfoque, estava apenas mudando, evoluindo, explorando. E continuou relevante por mais uns 50 anos.

Hoje em dia, 60 e tantos anos depois, quando se pergunta se o rock morreu, a resposta pode ser sim ou não. Do ponto de vista comercial, morreu. Em todo o mundo. Também morreu como um fenômeno de massas, como trilha sonora para a juventude. A geração Z escuta muito pouco rock. O gênero musical não dita mais a moda, gírias ou comportamentos. Ninguém quer começar uma banda na garagem. "Rockstars" nem existem mais e hoje quem faz o papel é algum cantor de uma banda de K Pop, provavelmente.

Mas se você estiver falando de uma morte da produção musical, do lançamento de novos discos de rock, a resposta é não, claro que não morreu. e nem nunca vai morrer. Bom, pelo menos nas próximas décadas, eu acho. Quem sabe... O ponto é que continuam existindo bandas muito boas, antigas ou novas, lançando músicas muito boas de diferentes subgêneros desse conjunto de sons que chamamos de rock (and roll).

Mas assim como o blues ou jazz, o rock passou para outra fase da vida. Não vai voltar às listas de mais tocadas dos streamings, não vai influenciar a cultura adolescente mainstream, não vai ser parte do acontecimento cultural que marcou o ano. Mas vai estar sempre ali, logo abaixo da superfície, cheio de novidades legais para quem curte esse tipo de coisa. Eu curto. Desde 1997. Acho que vou continuar curtindo enquanto respirar. E tiveram algumas coisas que eu curti em particular nesse ano de 2026:

O primeiro registro vai para o New Found Glory, que lançou o que provavelmente foi seu ultimo trabalho. É que Chad Gilbert, guitarrista e compositor da banda, já briga há um tempo contra o câncer e, infelizmente, a doença tá vencendo. Mas enquanto ainda pode, o cara continua produzindo sua arte e criou um ótimo disco. As primeiras 6 músicas de 'Listen Up!' são algumas das melhores que a banda produziu em 20 anos. Algumas das letras já são um olhar para trás, lembrando dos "bons tempos", mas não soam depressivas. Soam como uma celebração da banda, da vida. A segunda metade do disco é um pouco menos memorável, mas a ultima musica, "Frankenstein's Monster", vem com força e com uma bela letra para fechar o álbum da melhor forma possível. Pop punk fazendo o que pop punk faz de melhor.

Outra banda que segue a mesma vibe PMA é o Bouncing Souls, que lançou 'Born To Be', seu melhor disco desde 'Comet', de 2012. Assim como o disco do NFG, esse álbum também é curto, com apenas 10 músicas, o que parece ser uma moda de 2026. Talvez faça mesmo mais sentido no mundo do Spotify e concorrentes. Se é assim, que cortem os excessos e fiquem só com as melhores, como a banda de Nova Jersey fez. Destaque para "As One", um pouco mais pausada, com espaço para o baixo brilhar, uma leve pegada dub, mas com a energia lá em cima, e uma boa letra. "Only Echoes" é uma balada punk rock com influencia de The Cure e "Power" entrega o que o nome promete, e "Asshole Friends" é engraçada e sincera enquanto abre a roda punk.
'Born To Be' vale a pena ser ouvido do inicio a o fim.

Da mesma forma, 'Born to Kill' é enxuto e vale cada segun... bom, tem um cover cafona totalmente desnecessário, mas tirando essa, todas as outras músicas do novo disco do Social Distortion valem ser ouvidas. Depois de 15 anos, Mike Ness e sua gangue voltaram com força renovada e juntando praticamente todas as suas influencias: rock clássico, country, blues e punk rock. A produção um pouco mais sujinha se encaixa perfeitamente e potencializa as faixas, trazendo uma energia das apresentações ao vivo para as gravações de estúdio. Todas as músicas de trabalho estão logo no começo do disco (e são muito, muito boas), mas o lado b também merece atenção. "Over You" é sensacional e fecha o disco deixando o ouvinte querendo mais. Tomara que não demore outros 15 anos.

Já os Foo Fighters me surpreenderam com "Your Favorite Toy". Porque eles não lançavam nada realmente bom desde "Wasting Light", de 2011 (ou, para ser justo, do EP Saint Cecilia, de 2015). Mas também porque o single que dá nome ao álbum é bem ruim. A sorte é que todas as outras 9 musicas do disco são boas. Nem todas são ótimas, mas no skips. Os destaques são a porrada "Spit Shine", que mistura punk rock e berros a backing vocals melódicos no melhor estilo Kim Deal nos Pixies, a tensa e pausada "Child Actor", claramente uma analogia para a carreira do próprio Dave Grohl e sua dificuldade recente com o excesso de exposição e holofotes, e "Asking For A Friend", que fecha o disco indo de balada calminha a porradaria no final. O segundo single "Window" também tem seu charme, com sua melodia estilo "There's Nothing Left To Lose".

Entre bandas mais novas, o Grade 2 lançou o bom "Talk About It", que traz grande influencia de Rancid, assim como os discos anteriores já traziam. É punk rock bem melódico com pitadas de Oi! aqui e de ska ali. "Hanging On To You" é o destaque com seu refrão grudento e singalongs. Em seu 5º álbum, já da pra dizer que a banda não vai desenvolver um som próprio que seja inconfundível ou sua marca registrada, mas para quem gosta do estilo como eu, é um disco bem divertido que vale a pena ficar em rotação no carro.

Os canadenses do Riptides, que lançaram um dos melhores disco do ano passado, soltaram um novo EP esse ano chamado "Who goes There?". 4 músicas em 6 minutos e 15 segundos. Duas delas se destacam: "Dumb It Down" e "Bad Decisions". Na mesma pegada ramonescore, o Teenage Bottlerocket lançou o EP "The invisible man". Mas dessa vez eles pisaram no freio e trouxeram 4 músicas mais lentas, com uma certa melancolia nas melodias vocais e mais espaço para o baixo brilhar, principalmente em "You Made Me Get Called A Poser" e Pembrey's Face", as duas melhores faixas.

Com uma pegada mais skate punk, o Squirtgun voltou depois de muitos anos com o EP "Ghostly Sunflowers". Bom, são só 2 músicas, mas nenhuma delas é a música titulo então não da para chamar de single nem de saber qual faixa seria o lado a ou o lado b. Não importa, i guess. As 2 faixas são boas. "I'm The Ghost" é mais rápida e séria, "Sunflowers" é mais pop punk e ensolarada. Vale a pena ouvir ambas.

Ocupando o espaço entre o hardcore melódico, skate punk e pop punk, o Good Riddance lançou "Before The World Caves In". Um bom álbum, mas nada muito memorável. Deve ficar meio escondido na longa discografia da banda. Isso dito, vale escutar e colocar em alguma playlist as músicas "In Pieces", Devoid Of Faith" e "Drive Faster", a mais pop delas. Mas se você quiser algo mais hardcore, quase metal, o A Wilhelm Scream voltou à ativa e continuou de onde parou com o LP "Cheap Heat". Aqueles riffs rápidos e técnicos estão lá, os refrões nem sempre. De qualquer forma, é mais divertido que Propagandhi e duas faixas ficam na cabeça: "Poison II" e "I Got Tunnel Vision". A faixa de abertura Somebody's Gonna Die" também é empolgante.

No Brasil, os paulistanos do Em Chamas lançaram "Tied Up!", seu primeiro disco. 7 músicas em 15 minutos de puro hardcore em inglês, muito bem produzido. Se destacam as faixas "Old School Spirit" e "Welcome Sun". É isso. Não participo mais de perto do underground nacional e a informação não chega a quem não faz parte da cena. Talvez tenham outros disco bons de bandas brasileiras legais, mas eu simplesmente não sei.

De volta para o cenário internacional, mais precisamente ao mundo pós-hardcore, o Sparta lançou um "Cut A Silhouette". Destaque para "Everything You Say" e "Without Your Hands". Já o Quicksand lançou "Bring On The Psychics". Gostei da faixa-título e de "Cool Guy". De resto, os dois discos passam meio como música de fundo, um som legal mas que não faz você parar para escutar com mais atenção.

Já os canadenses do Flatliners continuam desafiando rótulos e mudando a cada disco. Dessa vez lançaram um disco mais hard rock que punk cheio de músicas com guitarras e vocais agressivos, mas sem inspiração ou energia e bem esquecíveis. Ainda assim se salvam "Good, You?", "Burn" e a esquisita e surpreendente "Pulpit". Da mesma forma, o Menzingers continuou seu caminho para longe do punk e em direção ao... dad rock, talvez? "Everything I Ever Saw" não é ruim nem bom e vai consolidando o apelido Mehzingers. Ainda assim, "Chance Encounters" e "Nobody's Heroes" se salvam e garantem seus lugares na tal playlist. Por pouco.

O Joyce Manor também lançou um novo disco, com 10 musicas em 19 minutos, apesar de não serem uma banda de grindcore ou street punk. Também são outro grupo que tem um pé no universo do punk rock, mas o resto do corpo é cada vez mais dad rock. De qualquer forma, "I Know Where Mark Chen Lives" se destaca muito e é de longe a melhor do disco. Playlist pra ela! 

Além disso, O Sugar voltou e lançou duas músicas. Boas, mas nada diferente do que Bob Mould vinha lançando em sua boa carreira solo. Vamos ver o que reservaram pra 2027. O Dillinger Four lançou o bom single "Don't Happy, Be Worry". O Basement lançou um disco que eu tentei ouvir várias vezes mas dormi em todas. De qualquer forma, o single "Wired" é legalzinho naquele estilo pós-grunge quase shoegaze que eles já traziam em seus últimos álbuns. O Superchunk lançou o single "I Don't Want You Anyway". Sempre bom, mas nada especial dessa vez. E o Afghan Whigs soltou o single "House of I", uma ótima música de uma banda a qual nunca dei muita atenção. Vale a pena ver o videoclipe.

No lado mais folk rock da força, a Courtney Barnett lançou o bom disco "Creature of Habit", com destaque para "Wonder", "Site Unseen" e "Mantis". Já Kurt Ville lançou "Philadelphia's Been Good to Me", com o bom single "Zoom 97". Honestamente não dediquei a esses lançamentos o tempo e atenção que eles mereciam, mas o ano só tem 8.760 horas. Uma pena, mas é como o universo funciona.

Ainda estamos no inicio de agosto, mas acho que já deu, né? O Dinosaur Jr. ainda deve lançar um disco mas, tirando isso, acho que 2026 já deu o que tinha que dar. A Copa do Mundo já acabou, ninguém merece a quantidade de lixo radioativo que vai explodir na nossa cara nesses eleições, podemos passar direto para a árvore enfeitada e o peru recheado, não? Virar a página? Bem vindo, 2027. Aqui no blog você já é realidade. Tchau! Alguém revisa esse texto, por favor. Alguém por aí?

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Os melhores álbuns de 2017

2017 passou rápido e como já é costume, perdi o lançamento de alguns dos melhores discos do ano, mas ao longo dos meses fui, aos poucos, descobrindo os novos sons de artistas legais, novatos e veteranos. Para começar, nesse ano, algumas bandas bem estabelecidas das quais eu gosto bastante lançaram álbuns bastante esquecíveis. O Foo Fighters, por exemplo, gravou Concrete and Gold, que deveria ser uma volta à simplicidade após os exageros do chato disco conceitual anterior, Sonic Highways. Nah. Ouvi duas vezes e desisti. Não há nada péssimo no disco, mas também não há nenhuma razão para ouvi-lo. Quase tudo ali, eles já fizeram bem melhor anteriormente. E as poucas novidades no som da banda erraram o alvo. Uma pena.

Algo parecido aconteceu com o Flogging Molly, que lançou Life Is Good em julho. Para ser justo, ouvi o disco bem mais do que duas vezes, mas ainda assim não fiquei com as músicas ou letras na cabeça e quando sinto vontade de ouvir a banda não penso nesse álbum. O grupo continua se aproximando cada vez mais de um folk irlandês tradicional e deixando o rock de lado. Isso não é necessariamente ruim e eu sempre gostei do lado mais acústico do quinteto, mas dessa vez não funcionou para mim.


Já outras bandas veteranas laçaram discos muito bons. O Hot Water Music, por exemplo, gravou Light It Up, que conta com muitas composições de Chuck Ragan e poucas de Chris Wollard. O som do álbum não fica muito distante daquele do disco anterior, o bom Exister. Algumas músicas mais rápidas, punk rock, outras mais lentas mas ainda assim pesadas e empolgantes, implorando por singalongs em apresentações ao vivo, e outras ainda um pouco mais próximas do trabalho solo de Ragan, mas com guitarras elétricas e produção roqueira. Nada inesperado ou fantástico, mas ainda assim bem legal.

Já o Rancid lançou Trouble Maker, que é muito melhor que seu trabalho anterior, o esquecível Honor Is All We Know. O disco tem uma urgência surpreendente. Há uns bons anos os vocais de Tim Armstrong não soavam tão fortes e a banda ainda incorporou o som Oi! que Lars Frederiksen vem fazendo no seu trabalho paralelo, Old Firm Casuals, de forma fluida no som já tradicional do Rancid. As letras também melhoraram um tanto, especialmente em Telegraph Avenue e I Kept A Promisse, lembrando o jeito que Tim escrevia nos três primeiro discos da banda. Dessa vez, apenas um ska marca presença no tracklist, a boa e divertida Where I’m Going, cantada por Lars. Outros destaques são Farewell Lola Blue, Bovver Rock N Roll e Say Goodbye To Our Heroes. A única coisa que falta para que esse álbum seja um clássico é o zeitgeist, mas isso não é culpa do Rancid, que não tem o poder de fazer o tempo voltar. Tudo que eles podem fazer é continuar lançado belos discos como esse.

Ainda entre as bandas veteranas, o Rainer Maria lançou seu álbum de retorno, S/T. Confesso não conhecer bem o trabalho da banda, cujo último disco havia sido lançado em 2006. Aparentemente, essa nova encarnação do trio produz um som um pouco mais lento, mas mais pesado, com guitarras sujas e distorções quase shoegaze, em certos momentos. De qualquer forma, S/T é um belo álbum, que por vezes lembra o som mais recente do Sleater-Kinney, com vocais altos, às vezes quase gritados, e um instrumental que vai do etéreo ao angular. Influencias de The Cure e Placebo também podem ser ouvidas entre as 9 músicas que somam pouco mais de meia hora. Bem legal.


Entre bandas e artistas mais novos (pelo menos para mim) também foram lançados vários álbuns legais. O melhor dele é, provavelmente, Losing, segundo trabalho do Bully. A banda tem um som calcado fortemente na virada dos anos 80 para os 90. Pense em Nirvana, Smashing Pumpkins, Sonic Youth, Dinosaur Jr., Hole e Veruca Salt. Os vocais de Alicia Bognanno vão de doces e melódicos para gritos emotivos em menos de um segundo e o instrumental a acompanha, abusando da distorção e da dinâmica start/stop tão característica de bandas da época. Losing talvez seja um pouco menos pesado que o primeiro álbum do trio, mas é tão bom quanto. Destaque para a faixa Kills To Be Resistant. Melhor descoberta do ano.

Outra boa descoberta foi a colaboração entre os singers/songwritters Courtney Barnnet e Kurt Ville, Lotta Sea Lice. Ambos tem um trabalho próprio já consolidado e interessante, mas a parceria caiu como uma luva, combinando vozes e melodias para alcançar um som que é mais do que a soma das partes. As duas músicas de trabalho, Over Everything e Continental Breakfast são excelentes e bem superiores ao restante das faixas, que não fazem feio, mas não empolgam tanto.

Outro disco com algumas músicas ótimas e outras meio esquecíveis é After The Paty, do Menzingers. Tellin’ Lies, Lookers, Bad Catholics e a música título são muito boas e tem letras interessantes, mas o restante do disco não chama tanto a atenção e no final fica a impressão de que a banda está se repetindo um pouco. Ainda assim é um bom álbum de uma boa banda.

Ainda no território do chamado orgcore, os canadenses do Deforesters lançaram um belo álbum intitulado Leonard. O som da banda lembra Loved Ones, Red City Radio, Nothington e Timeshares. Não há muita novidade aqui, mas sobram instrumentais empolgantes e refrões para serem cantados a plenos pulmões. Para quem gosta do estilo como eu, vale muito a pena conferir. Com uma pegada parecida, mas um tanto mais agressiva, o 88 Fingers Louie lançou um novo disco após 18 anos sem novidades. Variando do pop punk ao hardcore, Thank You For Being A Friend te joga imediatamente para uma sessão de skate no meio dos anos 90. HC melódico de ótima qualidade para tardes ensolaradas.

Ainda mais ensolarado é Boxing The Moonlight, dos americanos do Mister Heavenly. Com influencias muito diversas que vão de rockabilly e arena rock até funk e hip hop, o disco é um ótimo exemplo de como música pop pode ser interessante. Mas confesso não ter ouvido o álbum com a atenção necessária para fazer observações mais aprofundadas. Também ficou faltando conferir o novo disco do Slowdive, que retornou à cena musical com seu som shoegaze bem anos 90 após  22 anos parados. Nessa era de acesso infinito à informação e produtos culturais, é humanamente impossível prestar atenção em tudo que se gostaria, infelizmente. Quem sabe em 2018?

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Os melhores álbuns de 2016

2016 passou, muitos músicos famosos morreram, e continuo envelhecendo cada vez mais distante da cena roqueira local e cada vez menos antenado nas novidades internacionais. Ainda assim, alguns bons álbuns passaram pelos meus ouvidos nesse ano. Segue então uma lista dos melhores lançamentos do ano. E dos não tão memoráveis também.

Nessa segunda categoria se encaixam discos como Chemical Miracle, da banda australiana Trophy Eyes. Misturando pop punk melancólico com uma gritaria melódica que vai do triste ao raivoso com letras depreciativas, o álbum não é ótimo, mas é interessante, principalmente quando encontra um som quase onírico mas ainda assim agressivo.

Com uma atmosfera mais antiga, a banda californiana Kicker lançou Rendered Obsolete, um disco de punk rock clássico e hardcore britânico, quadradão, mas legal de ouvir. Os vocais rasgados e as letras sobre bebidas complementam o clima early 80's do disco.

Um pouco mais acima na costa oeste americana, o Noi!se lançou The Real Enemy. Apesar das boas participações dos vocalistas Al Barr, do Dropkick Murphy's e Aimee Allen, dos Interrupters, o disco da banda de Seattle nunca chega a convencer. É legalzinho enquanto está tocando, mas não te faz querer dar play de novo.

Também de Seattle, o The Exquisites lançou seu segundo disco, Home. A banda mistura um pouco de Timeshares, Hold Steady e até pitadas de Dinosaur Jr para conseguir um som sujinho, mas bastante melódico.

Um pouco mais pesado, mas ainda circulando entre o rock alternativo e o punk, Patch The Sky é o novo trabalho do veterano Bob Mould, ex-guitarrista e vocalista do Husker Du e do Sugar. O disco não impressiona e não traz muita novidade, mas é surpreendentemente pesado e energético para um senhor de meia idade. Vale a pena dar uma ouvida.


Os novaiorquinos do Parquet Courts lançaram Human Performance, seu quarto trabalho. A banda continua navegando entre post-punk, garage rock e indie, com influencias de Wire e Pavement. Quem pensou em The Rakes acertou.

Também de NYC, o MakeWar lançou Developing A Theory Of Integrity, com um som que lembra Lawrence Arms e outras bandas recentes de orgcore, mas que infelizmente parece nunca sair da terceira marcha. É legalzinho, mas falta algo para ser realmente bom e empolgante.

Vale ainda lembrar de We Disappear, o bom disco lançado pelo The Thermals. O trio de Portland faz um indie rock com guitarras bem destacadas, que lembra Guided By Voices, mas também se aventura em águas mais escuras onde navega o Editors, e em águas mais cristalinas, de bandas como Future Islands. Pena que os vocais declamatórios soam exagerados e o resultado final um pouco esquecível.

Em uma clima mais garage-punk, os canadenses do Dirty Nil lançaram Higher Power. O disco é sujo e energético, mas a maioria das músicas é esquecida rapidamente, à exceção de 'Zombie Eyed', a melhor canção do trio de Ontario.

Um pouco a leste, na província canadense de New Brunswick, o Right Shitty lançou um álbum bem barulhento e gritado. Bachelor of Arts é o disco de estréia do quarteto e, apesar de não encantar, traz a ótima 'Best Buzz', uma das melhores músicas do ano.

Entre os lançamentos mais esperados, o Dead To Me soltou um EP com uma faixa ótima e duas esquecíveis. Não dá para colocar I Wanna Die In Los Angeles entre os melhores discos do ano, mas a faixa-título é sem dúvidas uma das melhores músicas de 2016. A volta de Jack Dalrymple às composições e vocais também dá a esperança que um bom full-length deve sair em 2017.

Já o Against Me! lançou o sem graça Shape Shift With Me, que não chama atenção sob nenhum aspecto e deve ser esquecido no meio da ótima discografia da banda da Flórida.

No Rio de Janeiro, O Zander lançou um disco legal, mas meio pálido em comparação com o anterior, o ótimo Brasa, de 2010. Todas as características do som da banda estão lá, mas Flamboyant parece ter sido feito com um pouco preguiça, sem muito tesão.

Os veteranos do NOFX decepcionaram um pouco com um álbum muito irregular. First Ditch Effort tem músicas ótimas como 'Six Years On Dope', 'I Don't Like Me Anymore', e 'I'm A Transvest-lite', mas o disco acelera e freia vezes demais e nunca encaixa uma sequencia satisfatória de faixas. O excesso de teclados, de introduções esquisitas, e de duração e sentimentalismo das últimas faixas, 'I'm So Sorry Tony' e 'Generation Z' também não ajuda.

Da mesma forma, o Green Day lançou o decepcionante Revolution Radio. Algumas faixas soam bem legais, como 'Bang Bang', 'Revolution Radio', 'Youngblood' e 'Too Dumb To Die', mas mesmo nelas as letras-colagem muito fracas incomodam. A mesma teatralidade e falta de coesão que prejudicou 21st Century Breakdown atrapalha o álbum, que não flui direito, com baladas demais e produção excessiva. Uma pena. 

Já entre os lançamentos que provavelmente ainda serão ouvidos daqui há alguns anos estão:

Get Dead - Honesty Lives Elsewhere
Punk rock melódico de primeira, com vocais rasgados, instrumental mais limpinho, mas não produzido demais, e uma leve influencia country em algumas músicas são os ingredientes desse ótimo disco. O Get Dead não é das bandas mais valorizadas do cast da Fat Wreck Chords, mas acertou em cheio com esse lançamento. As melodias que chamam a atenção e grudam na cabeça sem perderem a agressividade são o que faz o ouvinte querer deixar o álbum no repeat. 'Dyin' Is Thirsty Work', 'Keep Rowing, Stupid', e 'She's A Problem' são os destaques. Quem gostou de 'Here, Under Protest' do Swingin' Utters deve curtir esse.

Down Memory Lane - Recycled Punk Rockers
O EP dessa banda franco-canadense transporta instantaneamente o ouvinte de volta para o anos 90, trazendo o som de bandas como Pulley e Millencolin à memória. São apenas 5 músicas, todas em inglês, mas banda de Montreal não precisa de mais do que 17 minutos para conquistar os fãs do estilo. A faixa de maior destaque é 'Angel Without Wings', que conta com um breve backing vocal feminino.

Brutal Youth - Sanguine
Terceiro lançamento da banda canadense de hardcore, Sanguine é rápido, pesado, raivoso e ainda assim melódico, mesmo que aos berros. É verdade que de vez em quando eles desaceleram um pouco, como em 'The King', 'Rogue Thoughts' e 'Depression', que se destacam das outras faixas pelo simples contraste com toda a agressividade do restante do disco. No entanto, é exatamente essa energia e velocidade quase fora de controle que mais impressionam no álbum, que conta com ótimas gravação e produção sem soar limpo demais. Para fãs de hardcore americano old school e NYHC.

Culture Abuse - Peach
Primeiro full-length dessa banda de San Francisco impressiona pela energia e a mistura em doses quase perfeitas de garage-punk, power-pop e um pouquinho de grunge. A gravação suja e os efeitos sobre os vocais só acrescentam ao som da banda, criando uma atmosfera interessante e evitando que o disco fique excessivamente radio-friendly, mesmo quando o ritmo diminui e outros instrumentos menos roqueiros se somam às guitarras. O single 'Dream On' é uma das músicas mais empolgantes do ano. Ótima surpresa.

Basement - Promise Everything
Após o lançarem o ótimo Colourmeinkindness em 2012 e entrarem em hiato logo depois, as expectativas dos fãs para esse álbum de retorno da banda inglesa eram altas, e eles não decepcionaram. Promise Everything é um pouco mais pop que o disco anterior, mas também tem seu lado sujo em algumas músicas, com guitarras mais destacadas e vocais mais agressivos. Mesmo nesse momentos, as melodias melancólicas e o clima britânico estão sempre presentes, fazendo o disco soar alegre e triste ao mesmo tempo. Destaque para as ótimas 'Blinded Bye', 'Submission' e 'Promise Everything'.

Violent Soho - Waco
Decididamente mais calmo que os discos anteriores da banda australiana, Waco ainda é pesado e energético o suficiente para empolgar. O clima noventista, que lembra Smashing Pumpkins e Mudhoney, também ainda pode ser encontrado, com os vocais rasgados, os gritos, os riffs distorcidos e sujos, e a alternância de momentos calmos com explosivos. Deixe seu cabelo crescer, pegue uma camisa de flanela e vá ouvir 'Blanket', 'Like Soda' e 'Evergreen' bem alto no seu walkman.

Face To Face - Protection
2016 foi o ano de várias bandas veteranas voltarem a lançar bons álbuns. Logo em março, o Face To Face nos presenteou com um disco bem legal, com um som ao mesmo tempo atual e reverente aos saudosos anos 90. 'Bent But Not Broken' e 'Double Crossed' são os destaques. A vontade é curtir as ótimas melodias e o baixo de Scott Shiflett em cima de um skate em uma tarde ensolada. Ou seja, Punk californiano noventista de primeira.

Bouncing Souls - Simplicity
Simplicity consegue misturar muito bem as melodias e o apelo pop dos últimos álbuns do quarteto de New Jersey com a energia, ritmo e os singalongs dos seus trabalhos mais famosos da virada dos anos 90 para os anos 00. O ótimo single 'Writting On The Wall' é uma das canções mais empolgantes da banda em muito tempo. Já o lado mais calmo do trabalho, de músicas como 'Satellite' e 'Gravity', não fica devendo nada, com seu clima romântico e analogias cósmicas.

Descendents - Hypercaffium Spazzinate
Os pais do pop punk não-ramônico voltaram com um disco quase tão bom quanto o clássico Everything Sucks, de 1996. Impossível não querer cantar junto com as letras inteligentes e engraçadas de Milo. Se por um lado o álbum não traz muita novidade ao som da banda, por outro consegue mesclar com perfeição todas suas facetas. Ah, se o Green Day pudesse fazer algo parecido... Os destaques são 'On Paper', a divertidíssima 'No Fat Burger', a pop 'Smile', e 'Spineless And Scarlet Red' com influencias de Social Distortion.

Blink 182 - California

Em meio às bandas já veteranas que lançaram material bom nesse ano, o Blink 182 foi a maior surpresa. Muito pouca gente ainda esperava alguma coisa interessante vinda do trio, mas a saída de Tom DeLonge e a entrada de Matt Skiba em seu lugar revitalizou o som dos caras. É verdade que muito do peso que Tom trazia aos trabalhos mais recentes do Blink foi embora com ele, mas o ego e os vocais cada vez mais horríveis do guitarrista também não estão mais lá, o que já é um grande ponto positivo. Na verdade, esse é o trabalho mais uniforme da banda desde o disco de 2001, já que o lado mais pop de Skiba (mais evidente em seus projetos paralelos do que no Alkaline Trio) casa muito bem com as composições mais radiofônicas de Mark Hoppus, já mostradas no bom disco do +44. Sem a censura de Tom no caminho, muitas das músicas de California prestam homenagem ao pop punk que a banda fazia nos anos 90, ainda que de uma forma mais limpinha. Até as faixas-piada estão de volta, mas sem grandes exageros escatológicos. 'Built This Pool' e 'Brohemian Rhapsody' têm menos de 30 segundos, mas são divertidas de forma inversamente proporcional à sua duração. 'Cynical', 'San Diego', 'No Future', e 'She's Out Of Her Mind' também são muito boas, ainda que às vezes as letras deixem um tanto a desejar. No geral, mesmo durante as poucas baladas, California é pop, divertido e despretensioso como Blink 182 deve ser.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Green Day - Revolution Radio (2016)

Resenha originalmente publicada no site gringo Punknews.org

Green Day is at a point in their career where they should be comfortable in their own shoes, putting out records with an established sound that please their fan base, but don’t surprise anyone anymore. Instead, they just went through a mid-life crisis of excesses, both musically and in their personal lives, and now seem to be trying to go back to their punk rock roots. And at the same time not. It’s confusing.

On one hand, Revolution Radio is a single record with 12 mostly-short songs and no complex album-wide narrative to be seen. On the other, it suffers from the arena rock production and the theatricality that marked American idiot and 21st Century Breakdown, from an excess of ballads and from being a band that can’t fit back into the punk rock world, nor can fully embrace a commercial rock sound and attitude.

If you’re a fan of the band, there are enough decent songs here to make for a good listen and at least this time around Billie Joe stopped swearing left and right like a rebellious pre-teen, but his lyrics still leave a lot to be desired. They’re not only full of clichés, but many times you can’t really tell what the hell he’s going on about.

In “Revolution Radio” there are images thrown around for no apparent reason, like “My love's bullet proof; give me cherry bombs and gasoline; debutantes in surgery”. In “Bang Bang”, a tune about mass shootings and police violence, he sings "give me death or give me head; daddy’s little psycho and mommy’s little soldier” and “I’ve got my photobomb; I’ve got my Vietnam”. At some point, you got to ask if he’s just putting war/violence related words together randomly.

Musically, the record is just as lost. If “Revolution Radio”, “Bang Bang”, and “Too Dumb To Die” sound good and as punk rock as Green Day can in 2016, “Outlaws”, “Troubled Times” and “Somewhere Now” are either cheesy ballads or have cheesy ballad-y parts with a grandiose sound and a theatrical atmosphere that don’t mix well with the heavier songs. In addition, many of the melodies seem recycled from older songs and put together like a collage.

"Forever Now" is a different case altogether. Although it has better, more personal lyrics that you can actually understand instead of a bunch words from a same theme put alongside each other, it's almost 7 minutes long and contains a part that refers back to the opening track “Somewhere Now”. In a record that is supposed to be a simple collection of independent songs, it sounds like an ill-fitted forgotten b-side from 21st Century Breakdown.

Luckily, "Ordinary World" is the exact opposite. It's the slower song on the record, but it's the best ballad here simply because it escapes from the overproduction and the overbearing theatricality from the rest of the record. It's sounds way more sincere and natural instead of like they're trying too hard. "Bouncing Off The Wall" and "Youngblood" are also decent tracks, in a fun, poppy and not-too-pretentious way, despite the lyrics still leaving something to be desired.

The general impression is that Green Day want to be underground again without leaving their arena rock sound behind, want to do a straight forward record without giving up on really long songs that mention lyrics from one another, want to be a punk band that have as many ballads as fast-paced tunes, want to be politically engaged without having a lot to say on the topic. In the end, despite some good ideas and enjoyable enough songs, they have a record that lacks focus, creativity and inspiration.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Os (Outros) Melhores de 2015

Como prova do quão velho e desatualizado estou ficando, uma segunda lista de melhores discos de 2015 se fez necessária após pessoas mais jovens e por dentro das novidades terem listado uma boa quantidade de lançamentos dos quais eu nunca tinha ouvido falar. Verdade, que muitos deles vêm de bandas novas e ainda relativamente desconhecidas em outros países, mas em tempos de internet banda larga, Bandcamp e YouTube essa desculpa não é muito boa, então decidi escrever outro post comentando apenas sobre as coisas legaizinhas ou muito legais que eu perdi no ano passado.

Depois de vários anos, Conor Oberst largou um pouco de lado seus projetos folk e voltou a gravar indie rock político com os Desaparecidos. Payola é o nome do álbum lançado pela Epitaph no verão americano. Nada fantástico, mas é legalzinho. Enquanto isso, o trio Nervosas lançou um bom disco de dark-punk com influencias de Dead Kennedys, The Damned e até um pouco de Cramps. Tem vocais masculinos e femininos se alternando e vale a pena dar uma ouvida.

Em uma onda bem diferente, o Midwestern Emo dos anos 90 está mesmo voltando, ainda que na Philadelphia. No verão, o Dogs On Acid lançou seu disco autointitulado, com musicas que lembram Rival Schools e Weezer das antigas. Em outro canto da cidade, o Spraynard voltou à ativa com Pond, uma boa coleção de canções pop punk / emo com letras bem interessantes. Ambos os discos saíram pela Jade Tree Records, casa do estilo desde seus dias de glória.

Já o Not Scientists, da França, soltou um álbum interessante de pop punk tocado e gravado como se fosse um disco dos Strokes. Junto com o Sport, os caras vêm representando bem a cidade de Lyon. E em Toronto, as canadenses do The Beverleys lançaram Brutal, um bom disco de punk/grunge, com destaque para a música de trabalho “Visions”. Mas apesar de todos os lançamentos acima serem bons, os melhores discos que eu deixei passar em 2015 são os seguintes:

Not On Tour – Bad Habits
A banda é de Tel Aviv, Israel, mas toca o legitimo punk rock californiano, com bateria e guitarras velozes e vocais melódicos. A voz da vocalista Sima lembra a de Cinder Block (Tilt) e Mad Marge (Stonecutters). Na verdade, Bad Habits (que contabiliza 16 musicas em menos de 22 minutos, todas elas boas) foi o disco que as garotas do Bad Cop/Bad Cop prometeram mas não entregaram.

Superheaven – Ours Is Chrome
Superheaven é o novo nome do Daylight, banda americana de grunge / rock alternativo com um pé no punk que perdeu seu antigo nome para uma banda espanhola de pop punk. Ours is Chrome sucede Jar, um dos melhores discos de 2013 de acordo com esse blogueiro, e não muda muito a receita de sucesso, contrabalanceando as guitarras sujas com vocais bem melódicos.

Dilly Dally – Sore
A banda canadense acertou em cheio logo em seu primeiro álbum, com um som totalmente calcado nos anos 90. As influencias de bandas como Hole, Pixies e Smashing Pumpkings ficam claras, mas a maior similaridade que vem a mente talvez seja com o Giant Drag, duo também inspirado no som noventista e que lançou um ótimo disco em 2005 e desapareceu do mundo. Boa surpresa.

Civil War Rust – Help Wanted
Se o Broadway Calls e o Swellers pararam de lançar novidades, o Civil War Rust chegou para matar a saudade dos fãs de pop-punk moderno. A banda da Bay Area de São Francisco busca inspiração na história da região para soltar um trabalho curto e certeiro. Melódico e ensolarado sem soar exageradamente adolescente, Help Wanted é um disco perfeito para tardes do verão que já chegou.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Os Melhores de 2015

Na humilde opinião desse blogueiro, 2015 não foi um grande ano para o rock alternativo no Brasil ou no exterior. Mas mesmo sem lançamentos de muitas das principais bandas da cena punk/hardcore e sem bandas novas que tenham realmente impressionado, vários discos bons foram lançados nos últimos 12 meses.

Ambos os vocalistas e compositores do Alkaline Trio – Matt Skiba e Dan Andriano – lançaram álbuns legais com seus respectivos projetos paralelos (The Sekrets e The Emergency Room). O Motion City Soundtrack quase voltou à sua melhor forma com Panic Stations, enquanto Frank Turner decepcionou um pouco com um disco que é apenas ok, tanto nas letras quanto nas melodias e principalmente nos arranjos excessivamente radiofônicos. No Brasil, o Dead Fish lançou um álbum bom ainda que meio esquecível, da mesma forma que fizeram o Teenage Bottlerocket e o Good Riddance nos EUA. Já as californianas do Bad Cop / Bad Cop bateram na trave com um disco que poderia ter sido muito bom se não fosse tão irregular.

Ainda assim, vale a pena destacar alguns álbuns e EPs que merecem continuar sendo ouvidos no novo ano que se aproxima rapidamente. São eles (em nenhuma ordem):

We are the Union – Keep It Down
Com uma mistura contagiante de pop punk e ska californiano, a banda laçou um EP que seria destaque certo 15 anos atrás. Da animada “Call In Dead” à relaxante “The Dreams That You Forgot” passando pelo bom cover de “Burnout” do Green Day, o grupo de Detroit tem o som ideal para tardes de verão roqueiras.

Hooligans United: A Tribute To Rancid
Em teoria, coletâneas, discos ao vivo e tributos não deveriam entrar nessa lista, mas uma exceção deve ser feita a esse ótimo álbum. Com 54 grupos de estilos completamente diferentes tocando street punk, pop punk, ska, reggae e até psychobilly era de se esperar muita porcaria, mas quase 50 das bandas acertaram na mosca, sejam elas famosas ou obscuras, tenham elas mudado substancialmente ou em quase nada os arranjos originais. Boa surpresa. 

Red City Radio - Red City Radio
Talvez o disco homônimo da nada de Oklahoma (primeiro depois da saída do co-vocalista e co-compositor Paul Pendley) não seja tão bom quanto o anterior, lançado em 2013, mas a voz e as melodias marcantes de Garrett Dale dão conta do recado, criando um álbum menos punk rock que os anteriores, mas ainda assim empolgante cheio de personalidade.

Millencolin – True Brew
Belo lançamento do quarteto sueco, sete anos depois do decepcionante Machine 15. A energia das músicas e da voz de Nikola Sarcevic voltaram para mostrar que mesmo com a idade e os caras ainda sabem fazer músicas perfeitas para embalar rolês de skate por aí. É muito provável que a banda nunca volte a lançar um clássico como Pennybridge Pioneers, mas True Brew poderia bem ter sido lançado entre este e Home From Home, lá pelos idos de 2001, e não faria feio.

Make Do And Mend – Don’t Be Long
Misturando o orgcore do primeiro álbum com o rock mais comercial do Segundo, a banda americana lançou um disco muito bom. Os vocais ora limpos ora rasgados contrabalanceiam bem as melodias pop e os instrumentais energéticos e melódicos já característicos dos caras em um trabalho que se encaixa bem ao lado do de bandas como Red City Radio e Polar Bear Club.

Foo Fighters  – Saint Cecilia
Ótima surpresa de final de ano, o EP funciona quase como um resumo da carreira do quinteto. A faixa-título representa o pop rock de hits como “Times Like This”, a animada “Sean” mostra influencias de Husker Du, “Savior Breath” é uma porrada na linha de “White Limo” e “Weenie Beenie”, “The Neverending Sigh” é inspirada por rock clássico e stoner rock e poderia bem estar em One By One, e “Iron Rooster” é a balada da vez (nada memorável, infelizmente). Ainda mais importante, a pretensão e sem gracisse de Sonic Highways passam longe.

Anti-Flag – American Spring
O veterano quarteto de Pittsburgh tem um som característico consolidado e nunca se aventura muito longe de sua zona de conforto. Ainda assim conseguem produzir bons álbuns a cada dois ou três anos. Em termos de melodias e letras, American Spring é mais do mesmo, mas em termos de produção, esse lançamento apresenta um som um pouco mais limpo que ressalta os refrões e deixa o disco mais leve e pop.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

A não-resenha do Porão do Rock 2015

Antes de começar o texto, preciso confessar: estou escrevendo sobre um evento ao qual não fui. E por que eu não fui? Vamos com calma. O festival Porão do Rock começou em 1998, organizado pelas próprias bandas que o criaram com o objetivo de expor seus trabalhos. Nos primeiros anos o foco foi o rock alternativo brasiliense contemporâneo. Com o tempo, esse foco foi se expandindo e passou a contar com bandas alternativas de outros estados até passar a contar com atrações internacionais.

Durante alguns anos o festival alcançou o que para mim era o balanço ideal: uma mescla de bandas novas locais, bandas nacionais de certa expressão, bandas sul-americanas pouco conhecidas e bandas gringas de médio porte. Tudo isso cobrindo vários estilos de rock, do metal mais pesado ao pop-rock, passando por punk/hardcore, indie rock, rockabilly e até um pouco de rap. Parecia estar funcionando. O festival tinha crescido no numero de palcos, público e relevância.

Se apresentaram nos palcos do Porão (entre o festival e as chamadas Pílulas) bandas estrangeiras como Helmet (EUA), Eagles Of Death Metal (EUA), Jon Spencer Blues Explosion (EUA), Mudhoney (EUA), Paul Di’Anno (Inglaterra), The Supersuckers (EUA), Red Fang (EUA), The Hives (Suécia), Nightwish (Finlândia), She Wants Revenge (EUA) e a maior delas, o Muse (Inglaterra).

Entre as bandas nacionais que estavam (mais ou menos) em alta quando tocaram no festival encontram-se Cachorro Grande, O Rappa, Pitty, Luxúria, Marcelo D2, CPM 22, Los Hermanos, Dead Fish, Ludov, Rumbora, Shaaman, Nação Zumbi, Moptop, Leela, Matanza, Superguidis e Móveis Coloniais de Acaju, além de bandas antigas, mas ainda em forma, como Korzus, Viper, Krisiun e Dr. Sin.

Mas em algum momento a receita começou a azedar até chegarmos à pobreza de 2015. Apenas um dia, sob o risco de chuva que para sorte de todos não se concretizou, e com pouquíssimas bandas interessantes. Que fique claro, não quero entrar em uma discussão de gosto, que afinal é como braço: tem gente que não tem. Estou falando de atrações que sejam relevantes no cenário roqueiro atual e que já não tenham tocado no próprio festival várias vezes.

Que me desculpem os organizadores, mas em 2015 Raimundos é tão decadente quanto a versão atual do Guns N Roses, Paralamas do Sucesso vem se transformando cada vez mais em uma banda-legado, que existe apenas pra tocar antigos sucessos para um público nostálgico, como a Plebe Rude já se tornou faz tempo, e o Capital Inicial... bom, não acho que se possa acusá-los do mesmo pecado, mas a produção atual dos caras é ainda mais trilha-sonora de novela do que já era antes.

Quanto às bandas de tamanho médio dessa edição, além de também já terem passado bastante do auge, não consigo nem contar quantas vezes Autoramas, Angra, DFC e Galinha Preta já tocaram no festival. Sei que eu já assisti a shows da primeira umas 74 vezes, mais ou menos um terço delas no Porão do Rock. Desculpa, mas não rola de sair de casa, pagar pra entrar, encarar cerveja e comidas ruins e caras, e enfrentar o fedor e filas dos banheiros químicos por essas atrações.

Isso para não falar de Dona Cislene e Scalene, que tocaram ano passado, e Alf+convidados. Nada contra o cara (Rumbora até foi uma banda legalzinha 15 anos atrás), mas colocar um membro da organização que atualmente está sem banda para tocar com uns amigos e ex-companheiros não é digno de um festival que já almejou muito mais.

Não sei quanto a crise econômica e a falência do governo local afetaram a organização, mas mesmo levando esses fatores em conta, o Porão não parece estar fazendo um bom trabalho. No dia anterior ao festival, a banda suéca de hardcore Satanic Surfers se apresentou para um bom público em Goiânia, a meros de 200 km de Brasília. Só faltou os deuses do rock implorarem para que alguém mandasse um ônibus pegar os caras ali do lado e colocá-los pra tocar no sábado. Certeza que o cachê deles é muito menor do que o desses medalhões brasileiros com cheiro de mofo.

E a taxa cambial atual não pode ser desculpa. Além dos suécos, a banda norte americana de hardcore Ignite se apresentou também em Goiânia no mês passado. E em outubro, a banda holandesa de death metal Asphyx se apresentou aqui mesmo em Brasília. Não são bandas novas nem em seu auge, mas mostram que shows internacionais de bandas alternativas que nunca botaram os pés na capital federal são possíveis e estão acontecendo, mesmo com toda a crise política e econômica.

Como sou um fã do festival, que fez parte da minha formação musical e onde passei momentos muito legais ao longo de mais de uma década, sinceramente espero que o Porão do Rock se reerga e volte a encontrar um caminho que o torne novamente relevante e atraia de volta aqueles que deixaram de comparecer nos últimos anos, especialmente em 2015. Para isso, os organizadores precisarão encontrar novas ideias para superar as dificuldades. Ou podem se contentar em ser só um evento cada vez menos relevante, com uns amigos da produção tocando em anos alternados e uns grupos de pop-rock dos anos 80.