sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Tirando o atraso: Filmes que eu deveria ter assistido 25 anos atrás

Antes do Pirate Bay, assistir filmes gringos independentes e obscuros sobre punk rock era quase impossível. Mas o mais frustrante nem era isso. O pior era ouvir falar desses filmes, ler sobre eles, e não ter nem onde procurar direito. Quando eu tinha por volta de uns 15 anos, eu deveria ter assistido alguns desses filmes, mas não tinha como. Depois, até tinha como, mas eu estava com uns 30 anos e, apesar de ainda curtir muito punk rock, o aspecto de rito de passagem do negócio já tinha ficado para trás. Então, não me esforcei para ir atrás deles navegando em águas internacionais, por assim dizer. Bom, as vezes a vida te dá uma segunda ou terceira ou quarta chance e você acaba trombando nas coisas sem querer. Nesse caso, foi no YouTube, of all places. Então agarrei essa oportunidade.

Mas antes de dar minhas opiniões irrelevantes sobre alguns desses filmes, é preciso fazer uma breve observação sobre o estado das coisas em 2026. Quando o streaming surgiu, a esperança era que as pessoas poderiam ter acesso a qualquer conteúdo que desejassem, na hora que quisessem. Depois, quando cada conglomerado de mídia resolveu criar sua própria plataforma de streaming, a esperança de poder ter acesso ao catálogo desses estúdios aumentou ainda mais, já que não seria mais necessário nem mesmo negociação de direitos. Mas não. Por algum motivo, essas plataformas simplesmente cagaram para seus próprios (muitas vezes premiados e históricos) catálogos de um tanto que agora podemos achar filmes subidos no YouTube de forma não oficial e os donos desses filmes sequer se dão ao trabalho de impor seu copyright. Dessa forma, versões em HD, com legendas em várias línguas estão disponíveis há anos para serem vistas de graça. Ok. Tá bom para mim, não vou reclamar. Mas é bem estranho.

Decline of the Western Civilization (1981)
O documentário essencial para entender o primeiro período da cena punk de Los Angeles, de 1979 até 1984. A estrutura do filme vai intercalando filmagens de shows de algumas bandas locais com entrevistas feitas tanto com as próprias bandas quanto com moleques da cena. Dessa ultima parte, ficaram famosos os curtos trecho com Pat Smear (Germs, Nirvana, Foo Fighters) e Flea (Red Hot Chilli Peppers), que na real não se destacam em relação aos outros entrevistados. Eram tão moleques e tão pouco articulados quanto os colegas.

Das entrevistas com bandas, dois momentos se destacaram para mim. Primeiro, a formação original do Black Flag mostrando seu espaço de moradia/ ensaios/ todo o resto. O "quarto" de Ron Reyes não passa de um armário semelhante aquelas moradias-caixão de Hong Kong. É tão triste quanto. Não importa se na California ou no sudeste da China, não há nada a se romantizar sobre a vida sem teto ou o squatting. Moradia é uma das necessidades mais básicas dos ser humano. Podem existir squats punks com iniciativas coletivas e horizontais legais em NYC, Londres ou Berlin, mas definitivamente não é o caso nesse doc.

A segunda é a entrevista com Darby Crash em sua cozinha fazendo um ovo, mostrando sua aranha de estimação e contando umas histórias meio sem nexo. Dá para ver o trainwreck prestes a acontecer. O humor autodepreciativo é até engraçado e tem seu charme, mas o teor nonsense e depressivo das falas do vocalista do Germs também me deixou meio triste. Vício em heroína não é uma parada muito divertida e a entrevista me lembrou uma feita com Kurt e Courtney em 1994 enquanto eles "cuidavam" da bebê Frances Bean pior que Darby preparava um ovo. Triste. E um clima pesado, deprê.

Sobre os shows em si, honestamente o melhor era o do Fear, uma banda meio esquecida sem um grande disco ou hit underground. No entanto era a banda mais pronta para ao mesmo tempo tocar punk rock e criar uma atmosfera punk, aquele ar de perigo que vem da música em si mas principalmente do vocalista antagonizando o público e praticamente incitando uma confusão generalizada. Sinceramente bom. Também achei o show do X legalzinho, com uma pegada mais art punk. Do lado negativo, se destacou para mim a apresentação do Germs. Tá pra rir um pouquinho por um minuto, mas é inassistível em sua totalidade.

No final das contas, não fiquei com inveja não. Não é uma cena que eu queria ter feito parte ou que eu tenha ficado interessado em ver muito mais. O que veio antes era mais legal. O que veio depois também.

Decline of the Western Civilization III (1998)
A diretora Penelope Spheers volta a cena punk de Los Angeles para retratar as mudanças ou atualizar o olhar documental. Do ponto de vista musical, o filme é um fracasso completo. Não captura nenhuma banda relevante, que estivesse em seu auge criativo ou que seja lembrada por qualquer um 2026. Isso foi um pouco de propósito, uma vez que o punk rock um pouco mais palatável tinha explodido comercialmente com o sucesso de bandas da Epitaph após a explosão do Offspring. Então, faz sentido que ela tenha procurado retratar bandas que estivessem em um patamar mais próximo dos punks que ela vai entrevistar. Mas ainda assim, o filme não tem nenhuma da relevância musical que o original tinha.

Da mesma forma, a diretora não entrevista punk rockers mais coxinhas, que apenas molham um pé no oceano do estilo de vida punk. O foco das lentes se vira para os gutter punks, os moleques que vivem em squats, punk houses ou na rua meio, em becos e calçadas. Como se pode imaginar, há muito alcoolismo e vicio em drogas pesadas, além de uma atitude compreensivamente niilista em relação a tudo, inclusive às suas próprias vidas. Não é engraçado, nem tenta ser. A diretora as vezes é direta até demais, quase confrontando os entrevistados, mas dado o contexto bruto de tudo, ninguém parece se incomodar muito e ela consegue respostas que parecem sinceras sobre histórias de fida bem tristes.

Para fechar o filme, um moleque que tinha sido recém apresentado morre quando a casa semi abandonada onde alguns punks moram pega fogo no meio da noite e ele não consegue sair. Um dos moleques diz ter tentado acordá-lo, mas ele estava apagado, muito bêbado ou, provavelmente, drogado. É um final chocante e triste como a vida desses adolescentes que muitas vezes preferiram viver nas ruas do que na situação em que estavam. No final, esse terceiro filme da série não consegue capturar muito sobre o punk rock como música ou sobre o movimento punk como um conjunto de ideias. Consegue apenas jogar um aluz sobre essa intercessão entre o punk e adolescentes sem teto na capital mundial do entretenimento.

Suburbia (1983)
Um clássico que todos dizem representar bem a vida de jovens punks da grande Los Angeles no inicio dos anos 80, até por
ser dirigido pela mesma diretora dos documentários Decline of the Western Civilization e usar moleques da cena punk como atores (incluindo Flea, baixista do Red Hot Chilli Peppers). O resultado é pesado e triste, principalmente no final.

A história apresenta um adolescente que foge de casa e da mãe alcoólatra. Ele não sabe para onde ir até ser resgatado por um punk alguns anos mais velho, que o leva para a casa onde ele mesmo e outros moleques em situação parecida vivem. O lugar é parte de um conjunto de imóveis abandonados e largados pela prefeitura de um subúrbio não identificado de LA.

Os jovens vivem de pequenos roubos a casas de classe média da cidade e não fazem muito da vida além de assistir TV e criar confusão por onde andam. Coisas pequenas tipo tacar garrafas de vidro em paredes, mijar no jardim das casas, andar por cima de carros chiques, cuspir em vitrines e coisas do tipo. Uma vida bem vazia e sem sentido, mas menos pior do que a situação que tinham antes. No meio do caminho, um dos moleques busca sei irmão mais novo, ainda um criança, e o leva para viver no squat. Uma das punks também é apresentada com mais profundidade. Trata-se de uma vitima de estupro que convive com o trauma sem nenhum apoio especializado e termina se suicidando.

Curiosamente, os antagonistas da história não são os policiais, que deixam os jovens punks em paz por ter mais o que fazer, não se importarem o suficiente, e porque um deles é pai adotivo de um dos moleques. O cara até tenta convencer o personagem a voltar para casa, mas não consegue. Então, frente a falta de ação do governo, um grupo de moradores resolve tomar uma atitude e formar um grupo armado para resolver a situação. Claro que dá merda e no meio do confronto entre os rednecks armados e os punks com táticas e armas improvisadas, o moleque punk pequeno acaba morrendo atropelado. Honestamente nem lembro direto o que acontece depois, qual é o epilogo e coisa e tal.

Minha impressão é que a cena punk de Los Angeles do finalzinho dos anos 70 e inicio dos 80 era violenta, triste e muito vazia de qualquer tipo de ambição artística ou ideológica. Não sei se a cena de Nova Iorque também era assim, até porque existe um período de transição entre a cena original da revista Punk, dos Ramones e dos art punks em torno do CBGBs e a cena do Agnostic Front e outras bandas de NYHC e crossover thrash. 

Já a cena de DC tinha todo o tipo de ideais em torno da gravadora Dischord Records, do straight edge ao DYI anticapitalista e feminista. Talvez ali o problema fosse o oposto: em vez de ser vazio, ser cheio demais de regras de conduta. E a cena londrina também era bem diferente, girando em trono do Oi! e do Hardcore D-beat e dividida entre os racistas alinhados com o National Front e os antiracistas alinhados com a tradição skinhead original jamaicana. Enfim, tirando um grande disco dos Adolescents, meu interesse em LA só vai voltar na virada para os anos 90 e a ascensão do Bad Religion e da Epitaph Records.

SubUrbia (1996)
Não há nenhuma conexão direta desse filme com o outro de mesmo nome. Se o filme de 1983 era semiamador e focava em adolescentes de classe trabalhadora perdidos em áreas esquecidas de uma grande metrópole, esse é uma produção hollywoodiana que foca em jovens adultos de classe média perdidos em um strip mall de uma cidade pequena. Todos eles têm dead end jobs que odeiam, mas boa parte do seu tempo é gasto ficando bêbados ao lado de uma loja de conveniência, no meio de um gigantesco estacionamento onde também se encontram um posto de gasolina, uma loja de bebida alcoólicas, um fast food genérico e uma lavanderia. É um cenário distópico, não de uma forma futurista, mas como símbolo do que deu errado no modelo de expansão das cidades americanas no pós-guerra.

Visualmente, é perceptível a tentativa de capturar o visual alternativo do meio dos anos 90. O look dos protagonistas é muito inspirado no Green Day. O trailer quase parece um videoclipe esquecido da banda lançado entre When I come Around e Walking Contradiction. Jeff é Billie Joe (o artista atormentado que overthink tudo), Tim é Mike Dirnt (o punk reservado), e Buff é Tre Cool (o comediante hiperativo que não para de fazer macaquices). Mas as comparações meio que param por aí também. Não é algo tão profundo assim.

Isso não significa que alguns dos personagens não tentem ser profundos. Sooze é namorada de Jeff, uma artista feminista amadora que quer ir para Nova Iorque viver das suas pinturas e performances. Ela executa uma dessas performances, meio dança e sapateado meio spoken word terrivelmente cliché. Acho que era para ser engraçado mas só da muita vergonha alheia mesmo.

Durante o filme ela dá um pé na bunda de Jeff e vai para Los Angeles com Pony, o único da turma que de fato saiu da cidadezinha e foi fazer musica profissionalmente. Ele está a beira de estourar de verdade mas passa pelo antigo ponto de encontro para ver os antigos amigos. Eles se dão bem porque são os únicos que não parecem cronicamente depressivos ou com uma visão niilista da vida aos vinte e pouco anos.

Jeff é um músico que não tenta mais tocar, não tenta arrumar um trabalho melhor para sair da casa dos pais, não apoia a ideia da namorada de se mudar, não consegue ficar feliz pelo amigo que conseguiu algum sucesso, não ve sentido no american way of life mas participa dele na inercia e reclama de tudo mas não age para mudar nada. É um niilismo depressivo de alguém que é inteligente mas que usa essa qualidade apenas para pensar demais e discutir por tudo em uma mesa de fast food.

Já Tim é um niilista mais Sid Vicious. Antigo quarteback do time da escola que não tinha o que fazer depois da formatura, se alistou no exercito para "ir ver o mundo e ter aventuras" (a ideia mais americana e mais estúpida do mundo), só para terminar cortando a ponta do próprio dedo fora para ser dispensado e receber um beneficio mensal qualquer.

Diferente de Jeff, Tim leva mais a serio a ideia de que se nada tem significado ou valor e se ele e a sociedade não têm futuro, é melhor tacar fogo na porra toda. Mas ele não tem nenhuma grande ideia para destruir o sistema nem nada assim. Ele se contenta em antagonizar todo mundo com uma atitude babaca e em ser racista com o dono e atendente da loja de conveniência, uma paquistanês chamado Nazeer, que já está mais do que de saco cheio de e dos amigos. Além de xingar e tentar partir para cima do migrante, ele arruma até uma arma para escalar a briga depois de ser preso por algumas horas por beber em público ou qualquer bobagem do tipo. Dá para ver que Tim vai terminar a vida preso ou morto após cometer algum crime idiota just because.

Buff é completamente idiota e parece nunca ter saído da quinta série. Às vezes parece até ter algum tipo de retardo mental. E por ultimo temos Bee Bee, a amiga de Sooze. Ela é uma alcoólatra em recuperação que se coloca sempre em segundo plano, escondida não por timidez ou para parecer misteriosa, mas por não fazer parte do grupo mas também porque a saúde mental dela está por um fio. No final do filme, ela finalmente fica sob os holofotes ao sofrer uma overdose e ser encontrada a beira da morte no telhado da loja de conveniência.

Não é um filme engraçado. também não é exatamente triste. Também não te deixa com raiva. Em vez disso, te deixa com uma sensação de vazio. Nesse sentido ele consegue com sucesso fazer o espectador ter uma ideia de quão vazia é a vida e a noite dos protagonistas. Dá mesma forma que o strip mall suburbano em que vivem, a vida deles poderia ser objetivamente muito pior, mas é meio deprimente mesmo assim.

SLC Punk (1998)
É uma comédia meio caricatural e boa exatamente por isso. Pelo exagero dos personagens e situações, que deixam o filme engraçado e leve. As reflexões mais interessantes sobre o movimento punk e sobre crescimento ficam em segundo plano, mas não escondidos, o que funciona bem. O personagem principal é Stevo, que muitas vezes quebra a 4ª parede e fala com espectadores, tem todo tipo de reflexões sobre a sua vida e sobre o punk. quem está assistindo, também tem. Essas são as minhas, em resumo:

Não é a toa que a maioria dos punks de 77 e do inicio dos anos 80 eram adolescentes ou, no máximo, tinham 20 e poucos anos. Quando tinham mais, quase sempre eram pessoas em situações muito precárias de vida. Gutter punks sem teto convivendo com alcoolismo e vicio em drogas, na maioria das vezes. É muito difícil ser um punk de moicano, coturno, calças rasgadas e jaqueta de couro com spikes quando se tem um emprego, filhos, se cuida dos pais idosos, paga boletos e vai ao mercado comprar itens de higiene pessoal antes de passar na reunião de condomínio. Não é impossível, mas é difícil. Geralmente quem consegue é quem tem muito pouco a perder na vida, o que não é o caso do protagonista do filme.

A ideia pode parecer careta ou até reacionária, mas não precisa ser. É verdade que a maioria das pessoas que um dia se disseram punks ou que cresceram com punk rock e fazendo parte de alguma cena punk não chegam aos 30 com uma atitude niilista, falando em derrubar o sistema ou viver uma vida anarquista. Mas podem incorporar no seu dia a dia pequenas lições ensinadas a elas pelo punk. E muitas vezes fazem. Seja vivendo a vida sem idolatrar ninguém, sem procurar por heróis ou salvadores de qualquer tipo, seja trabalhando em um esquema de cooperativa, seja tendo casamentos de alguma maneira não convencionais, seja ensinando a ética do faça você mesmo para seus filhos, seja apenas evitando levar uma vida que valorize de forma exagerada o dinheiro e a busca pela riqueza.

Tem quem acha que essa visão transigente do punk é vendida, ou burguesa ou sei lá o que. Entendo que um dos punks do Decline of the Western Civilization pense assim de mim ou do Stevo. Mas eu não acho. O que eu acho é que fazer concessões é necessário para viver bem. O truque está em achar onde desenhar a linha. E saber de que lado você não vai se sentir mal de pisar, onde vai conseguir dormir bem e feliz, sem se machucar, sem contradizer seus próprios ideais.

Nesse sentido SLC punk é bem maduro, apesar do tom exagerado e caótico da filmagem e edição. Apesar da história terminar de forma triste, com a morte do melhor (único?) amigo de Stevo, Bob Heroína, foi o único desses filmes que não me deixou meio para baixo depois de assistir. Não sei se isso faz dele menos punk.

This is England (2006)
Ufa! Saímos dos EUA e podemos ter uma visão diferente do punk. This is England conta a história de Shaun, um moleque de 12 anos que perdeu o pai na Guerra das Malvinas. Desde o inicio do filme ele demonstra ter uma raiva semi reprimida que explode quando ele é provocado na escola, na loja de conveniência ou na rua, por um grupo de skinheads liderados por Woody, que parecem ser uns 10 anos mais velhos que ele, mas o acolhem mesmo assim, como um mascote. Shaun se se bem por ser parte de algo e ter para onde direcionar sua energia, em pequenos atos de vandalismo.

A falta de acesso à terapia e a uma forma produtiva de processar o luto ou traumas, leva muita gente a lidar com esses sentimentos de forma autodestrutiva. Também faz as pessoas procurarem acolhimento em grupos de gente com problemas similares. Durante o final dos anos 70 e inicio dos 80, muitas vezes eram grupos de punks ou de skinheads. O filme é bem realista nesse sentido e também demonstra que esse sentimento de pertencimento e irmandade por der algo positivo ou negativo. No caso de Shaun, é inicialmente algo bom, mas depois vai dar errado e levar ele ser influenciado por más pessoas.

No enredo do filme, esse personagem é Combo, um skinhead que liderava o antigo grupo do qual Woody fazia parte e agora saiu da prisão e logo de cara demonstra que vai tentar tomar conta desse novo grupo também. Além de demonstrate um certo carisma e comandar atenção, Combo tenta conquistar o grupo apresentando a eles uma missão, um conjunto de ideias para guiar suas ações: o nacionalismo inglês. As ideias racistas e xenófobas que colocam a culpa de todos os problemas do país e da vida da classe trabalhadora nos imigrantes, sejam jamaicanos, sejam paquistaneses e indianos.

De novo, o roteiro é muito calcado na realidade, na forma como esse neofascismo do partido National Front conquistou uma parte considerável da working class inglesa, francesa e de outros países da Europa, e que agora mostra sua face de novo nos EUA por meio da figura de um playboy herdeiro bilionário que se apresenta como outsider e dá vazão a raiva e frustrações de pessoas brancas de todas as classes sociais por meio de falas e ações racistas e anti migração, além de atacar os pilares da democracia, enquanto promove um conservadorismo religioso que se opõe à modernidade e à ciência. Tudo isso é resumido por meio de slogans nacionalistas como America First e fascistas como Make America Great Again, que demonstra uma vontade de voltar a um passado idealizado onde a nação teria sido grande.

No filme, isso é mostrado em sua faceta mais banal e pé no chão. O grupo de se divide entre quem não quer saber das ideias de Combo e quem vê nelas, e na figura dele, uma caminho para dar vazão às próprias frustrações; Infelizmente Shaun decide ficar com Combo e começa a ser doutrinado e radicalizado por ele. No entanto, apesar de mostrar o novo grupo cometendo atos de vandalismo e ameaçando o dono paquistanês da loja de conveniência, o foco acaba sendo em como Combo vira uma figura paterna pra o moleque, um modelo de masculinidade, o que talvez seja ainda pior que as ideias nacionalistas e racistas.

Esse foco em um grupo pequeno de jovens entre 12 e vinte e muitos anos também serve como uma amostra do que aconteceu com a cultura skinhead britânica, dividida entre aqueles que continuaram seguindo as tradições dos skinheads e rude boys jamaicanos que deram origem ao movimento, e aqueles que a transformaram em algo ligado ao nacionalismo, à xenofobia, e em ultima instancia, ao neonazismo.

No final das contas, Combo acaba perdendo a cabeça depois de ser rejeitado pela namorada de Woody, com quem ele tinha se envolvido brevemente antes de ser preso. Após pressionar Milky, o único skin negro do grupo antigo a conseguir maconha, os dois vão para a casa de Combo que, no meio da festa, fica com inveja da família de Milky e, em um acesso de raiva, espanca o migrante jamaicano na frente de Shaun e dos outros membros da sua própria gangue. O crime parece ser o ultimo prego no caixão do grupo, apesar do filme não deixar claro o que acontece depois.

Da mesma forma que vários dos outros filmes que eu comentei aqui, o sentimento que prevalece para mim é a tristeza, mas do que a revolta contra os personagens racistas e violentos. As cidades são tristes, as famílias são tristes, até os crimes são tristes, meio deprimentes. No caso de skinheads, a trilha sonora de toda essa tristeza é o punk rock oi! e o reggae. A primeira faz um apelo a irmandade e convida todos no pub a cantar junto sobre os working class heroes como o pai de Shaun. A segunda é um link permanente com as raízes jamaicanas do movimento, mesmo quando é escutada pelo lado racista do movimento, em um anacronismo que demonstra o quanto as pessoas e as sociedade podem ser hipócritas. 

Para mim, a sensação que fica é que o Joy Division é quem melhor capturou em música a atmosfera da Inglaterra do inicio dos anos 80. E This is England capturou bem em filme o estado de espirito do país no mesmo período.

domingo, 23 de agosto de 2026

A lista sem fim dos 50 anos do punk rock (nunca mais vou escrever sobre tantos discos de uma vez)

Bom, no final das contas, resolvi espantar a preguiça e fazer uma lista dos 50 melhores (para mim) álbuns de punk rock de todos os 50 anos do gênero. É uma tarefa impossível e inevitavelmente alguns discos muito bons vão ficar de fora, mas é algo totalmente pessoal de qualquer forma (e não é como se alguém fosse ler isso também).

Além disso, deixei de fora algumas bandas clássicas porque eu não gosto mesmo. Na minha lista, nada de Black Flag (banda mais superestimada de todos os tempos), Minor Threat (duas músicas clássicas e um monte de outras iguais mas piores), Fugazi (banda chatona), Bad Brains (caótico demais, não consigo), Agnostic Front (até gosto mas nenhum disco fica entre os 50), Screeching Weasel (banda mais importante do que boa e sem um grande album). Mesma coisa com bandas nacionais: nada de Ratos de Porão (tem album clássico mas eu não curto o som), Plebe Rude (meio chata e mais post punk do que punk rock) e Cólera (Pela paz... é legal e importante e entraria na lista 75 melhores) ou Olho Seco (nah!). Enfim, deu para entender, né?

Por último, Essa parte dos melhores 50 não está em ordem de preferencia (de novo, tarefa meio impossível), mas em ordem alfabética. É o que é. Lets go!

Adolescents - Adolescents (1981)
Hardcore melódico a frente do seu tempo, com um instrumental que influenciaria a cena de skate punk da Epitaph Records uns 10 anos depois, mas com uma voz ainda adolescente cheia de deboche e acidez como era comum na primeira onda do hardcore californiano e no punk77. O destaque é "Kids of the Black Hole", que conta a história dos jovens que moravam na punk house conhecida como Black Hole, em Los Angeles. Com mais de 5 minutos que passam como se fossem 2, pode ser considerada punk rock progressivo, um oxímoro que eles certamente divertiria Fat Mike, um fã declarado.

Alkaline Trio - From Here To Infirmary (2003)
Punk rock melódico com um leve tempero gótico e temas dark. From Here to Infirmary é energético e empolgante, ainda que tenha um ar um pouco triste. Aliás, esse é o diferencial da banda, além da ótimas melodias nas composições de ambos os vocalistas. O equilíbrio perfeito entre energia roqueira, histórias de serial killers e reflexão deprê sobre partes mais fucked up da vida é exatamente o fez a banda estourar no underground. Os destaques são a faixa de abertura "Private Eye", "Armagedon" e "I'm Dying Tomorrow".

Anti-Flag - The Terror State (2003)
Eu sei, eu sei... Mas prefiro cancelar só o Justin Sane e não a banda como um coletivo que produzia música. Os discos continuam com as mesmas qualidades e defeitos que antes. E The Terror State quase só tem qualidades. Abre com "Turncoat", uma mensagem direta para o então presidente dos EUA, George Bush. A introdução acústica seguida da explosão sonora com a entrada da completa deixam claro que tipo de banda eles eram. Diretos até demais, simples da melhor forma, aquela que deixa cada musica na cabeça, seja pela melodia, pelo riff, ou pelo slogan. O album não tem uma música ruim. Quase todas tem alguma característica única. "Post War Breakout" conta com os vocais de Chris #2 e mais espaço para o baixo aparecer. "Power To The Peaceful" tem uma dinâmica start-stop interessante, um refrão para ser cantado junto, e um bom solo de guitarra, além da letra tremendamente clara contra a guerra no Iraque. "Mind The GATT" tem gang vocals e um aceno ao ska nas guitarras, "You Can Kill The Protester..." tem uma linha de guitarra marcante nos versos e um refrão tipo slogan maravilhoso. "Wake Up" tem um riff que lembra the Unseen (boa banda de street punk, aliás) e um vocal meio falado nos versos. "Tearing Down The Boarders" tem música e letras que fazem você querem pular no mosh pit e logo depois ir destruir um muro na fronteira do México ou da Cisjordânia. "Death of a Nation" é a mais rápida e curta do disco, uma porrada punk para abrir a roda no show. Além de muitos destaques e quase nenhum filler, o album saiu em um momento importante do inicio dos protestos contra a guerra do Iraque, que aumentariam muito um ano depois. Essa conexão com os seu tempo é sempre um fator poderoso para tornar um disco memorável. "To save you we might have to kill you | for freedom you may have to die | number one at liberation | liberating life from bodies | helping spirits fly".

Bad Religion - Against the Grain (1990)
Melhor album da trilogia de discos que fez o Bad Religion famoso na virada dos anos 80 para os 90 e resultou neles assinarem com uma gravadora major. Cheio de hits punk empilhados em 35 minutos de hardcore melódico. Traz também a primeira versão de "21st Century Digital Boy", que viraria single e videoclipe em 1994, quando regravada. Além dela, recomendo o clássico "Modern Man" e minhas preferidas "Operation Rescue" e "God Song", mas, na verdade, o melhor mesmo é ouvir do inicio ao fim.

Bad Religion - The Empire Strikes First (2004)
É album mais abertamente politico da banda, que é conhecida por ter letras menos diretas e mais reflexivas. O momento era de um renascimento do punk de protesto contra a guerra do Iraque e as politicas de George Bush Jr. e o Bad religion não perdeu o trem, mesmo tendo mais de 20 anos de estrada na época. Além disso, também é um disco bastante energético e veloz, com destaque para a bateria de Brooks Wakerman. O hit pop "Los Angeles is Burning" é excelente e a música-título é uma das melhores da carreira do BR. "God's Love" e "Let Them Eat War" também se destacam.

Bombshell Rocks - Street Art Gallery (1999)
Mais uma banda da cena sueca que se destacou na virada do milênio, o Bombshell rocks tem um estilo mais street punk, oi! e punk'n'roll, que às vezes lembra o Rancid e Swinging Utters. Mas longe de ser uma cópia, a banda têm personalidade própria e talento para criar melodias, refrões e sigalongs memoráveis. O equilíbrio vem com os vocais ríspidos e o instrumental punk, resultando em um som que faz você querer se mexer e cantar junto. "The Will The Message", com seu piano rock n roll é fantástica."180 Down", "Out of Order" e "Madhouse não ficam muito atrás. A banda e o album mereciam ser mais lembrados.

Bouncing Souls - How I Spent My Summer Vacation (2001)
De longe o melhor disco da banda, ...Summer Vacation é de fato um album essencial para o verão de quem curte punk rock melódico, cheio de energia positiva e singalongs divertidos. Além da melhor e mais conhecida música da banda, True Belivers, o disco é cheio de outros hits como "Gone" (famosa por ter aparecido em uma das melhores edições da série de coletâneas Punk O Rama) e "Manthem" (famosa por ter feito parte da trilha sonora da série de jogos de videogame Tony Hawk Pro Skater). Mas "Broken Record" e "Private Radio" também não podem ser esquecidas. Discão para todas as estações.do ano.

Buzzcocks – Singles Going Steady (1979)
Inclusão polêmica porque é uma coletânea de vários a-sides e alguns b-sides de singles que não fizeram parte dos 2 LPs que os Buzzcocks tinham lançado até ali. Exceto quando fizeram. Não tem regra, o caos impera. O fato é que a maioria das faixas continuavam sendo inéditas para a maioria dos ouvintes e só podiam ser encontradas nesse lançamento. No final das contas, Singles Going Steady é, de certa forma, um Best Of, mas também é uma compilação de b-sides e, ainda, um disco de inéditas ao mesmo tempo. Enfim, o disco acaba ganhando um passe aqui na lista por sua qualidade, mais do que qualquer outra coisa. Várias da músicas desse lançamento precisam ser incluídas entre as melhores da 1ª geração de punk rock e ressaltadas como alguns dos melhores exemplos do lado mais pop do gênero, ao lado de várias dos Ramones. E só poderiam ser por meio desse lançamento. No final das contas, a qualidade fala por si só e as músicas se impõem. Coletânea ou não, elas têm que ser escutadas por qualquer fã de punk rock.

Cock Sparrer – Shock Troops (1982)
Se o hardcore pegou o punk 77, acelerou ainda mais, deixou as guitarras ainda mais sujas e pesadas e os vocais uns 900% mais raivosos, o Oi! fez um caminho bem diferente, mantendo os níveis de velocidade, agressividade e simplicidade da 1ª geração punk e adicionando pequenos solos de guitarra, mais gang vocals, partes com piano ou sopros e, mais que qualquer outra coisa, uma identidade working class britânica, do sotaque às histórias cantadas. Para mim, nenhum álbum encapsula melhor o Oi! do que o primeiro LP do Cock Sparrer. Fiel ao estilo da primeira à ultima música e basicamente sem falhas.

Dead Boys - We Have Come For Your Children (1978)
O consenso é que o lançamento anterior da banda é o disco essencial para as listas de punk rock, acho que mais por ter sido lançado em 1977 do que por outro motivo. Young, Loud and Snotty é um ótimo álbum, mas eu acho mais proto punk do que punk rock. É mais aquele rock n roll sujo dos Stooges do que o som dos Ramones. Já esse segundo disco é um pouco mais punk rock e tão bom quanto o primeiro, com a mesma influencia cinquentista, a mesma atitude e vocais ácidos de Stiv Bators e as mesmas letras politicamente incorretas. "Ain't It Fun" é a música que melhor representa isso. É uma sobra da banda anterior dos caras e sonoramente não é punk rock, mas a letra e a forma como ela é cantada fazem dela 100% punk. Se tivesse "Sonic Reducer", esse seria o disco perfeito. Não tem, mas inda acho que merece o lugar na list a frente do disco de estreia.

Dead Fish - Zero e Um (2004)
O álbum de estreia da banda capixaba em uma gravadora grande já abre com uma pedrada anunciando que "hoje é o dia da revolução". Mas a revolução de que eles falam em "A Urgência" e ao longo do disco não é sobre derrubar governos ou decapitar pessoas. É sobre mudar radicalmente suas próprias ideias e ações no dia a dia. E o som dessa revolução interna é hardcore melódico com uma pegada pop aqui e ali e uma produção que dá ao som da banda uma pegada mais "Epifat". Além da música de abertura, "Queda Livre" e "Re-Aprender a Andar" chamam atenção e ficam na cabeça. Já a faixa título é um excelente skate punk muito veloz e melódico, e "Você" é o hit pop, em que a banda tira o pé do acelerador e soa quase radiofônica. Mas a letra engrandece a música, fingindo ser uma canção sobre amor para, no momento final, se revelar uma crítica à ganancia e ao modelo econômico vigente. Não foi à toa que Zero e Um quebrou a barreira entre o underground e o mainstream e se tornou um marco do rock brasileiro dos anos 2000. 

Dead to Me – Cuban Ballerina
Punk rock melódico cheio de hooks que te agarram sem deixar você pular uma faixa ou trocar de disco. Jack Dalrymple é um craque no estilo e demonstrou seu talento em várias bandas, como One Man Army e Swinging Utters. Mas é nesse disco que a sua fórmula alcançou o melhor resultado do inicio ao fim, com a alternância e interação constante entre dois vocais. Com apenas 11 faixas, o álbum nunca perde o gás e uma das músicas mais punk é a última dos disco, "Visiting Day". Outros destaques são "Don't Lie", "By The Throat" e "Writing Letters". Uma pena a banda não ter tido uma carreira mais estável e prolifica.

Descendents - Everything Sucks (1996)
A volta da banda depois do término uma década antes é furiosa e hardcore e também pop e cheia de refrões grudentos sobre garotas cantadas por um nerd agora nos seus 30 anos e com um doutorado na parede do escritório. A música título mostra que nem tudo são flores na vida de ninguém. Mas talvez café ajude. A bebida é uma das obsessões da banda desde as primeiras gravações e aqui rende a excelente "Coffee Mug". 34 segundos de hardcore exaltando o grão e uma escolha perfeita para abertura do MTV Sports, programa sobre esportes radicais da emissora à época. Do lado mais pop estão "I'm The One" e "When I Get Old", respectivamente sobre friendzone e envelhecimento, e também muito boas. O humor imaturo também marca presença com "Eunuch Boy", que é sabiamente curta. É essa sabedoria na montagem do tracklist e na produção de cada música que faz Everything Sucks ser melhor do que os discos clássicos da banda do inicio dos anos 80. Além disso
, ainda fez parte do zeitgeist do meio dos anos 90 e lembrou a todos de onde vinha o pop punk que tinha virado sucesso comercial. Não parece acidente que o álbum termine com a excelente "Thank You". Quem devia agradecer por esse clássico somos todos nós.

Green Day - Insomniac (1995)
Sem dúvida o disco mais punk rock do Green Day. Não tira o pé do acelerador exceto para a pesada e esquisita "Brain Stew", que emenda com a música mais rápida da discografia da banda, "Jaded". A pegada não convencional também a aparece na maravilhosa "Panic Song", com sua longa e tensa introdução simulando sonoramente um ataque de pânico crescente até explodir em acordes punk e letras sobre sentimentos de autodestruição, pessimismo e raiva. Só pelos nomes das músicas já dá para perceber a pegada das letras, com versos mais pistola, negativos e niilistas sobre os assuntos já abordados nos álbuns anteriores da banda. É fácil perceber que o trio teve dificuldade de lidar com o sucesso, a fama e a rejeição de sua antiga cena, mas isso acabou resultando em um disco ótimo, que o Green Day precisava ter na carreira e só poderia ter feito naquele momento. A pegada suja, pesada e veloz prevalece do início até o final, sem pular nenhuma música ao longo dos 32 minutos de Insomniac, passando pelas maravilhosas "Geek Stink Breath", "No Pride", "86" e "Westbound Sign" até chegar na música mais pop do álbum, a engraçada "Walking Contradiction", que teve um ótimo videoclipe para acompanhá-la. Se alguém tinha alguma dúvida de que o Green Day era uma banda de punk rock, ficaria de boca aberta após esse álbum, que merecia um nota alta até na Maximum RocknRoll.

Green Day - Nimrod (1997)
O quinto album da banda é contraditório. Seu maior sucesso é a balada "Time of Your Life" aka aquela musica preferida do Green Day por quem não gosta de rock. Nem é tanto culpa da canção em si, que não é ruim, mas overproduced e muito overplayed. Por outro lado, Nimrod traz "Take Back" e "Platypus", duas das musicas mais ferozes da banda, pesadas, rápidas, cheias de veneno punk. A segunda merece destaque especial pela sinceridade na declaração de ódio da banda ao maior policial do punk já nascido (e falecido), Tim Yohannan. O terceiro lado do disco é o do pop punk pelo qual o trio já era conhecido, que é representado por boas faixas como "Nice Guys Finish Last", "The Grouch", "All The Time", "Jinx" e "Reject". Nenhum fã dos discos anteriores pode reclamar. E o quarto lado 
é aquele da inovação, de uma banda tentando coisas novas. "Hitchin' a Ride" introduz ritmos de marching bands ao som pesado de guitarra e resulta em uma atmosfera de cabaret punk sensacional. "Redundant" aposta em uma estrutura repetitiva para dar apoio aos versos sobre a rotina maçante da vida. "Scattered" e "Worry Rock" contam com melodias sessentistas inspiradas nos Kinks. "Uptight" é calma e tensa até virar punk no refrão e emendar um solo de guitarra. E "Walking Alone" é folk rock com direito à gaita. Todas muito boas, exceto a circense "King for a Day", uma brincadeira sobre crossdressing que resulta em uma música irritante e meio ridícula. Não se pode ganhar todas. 16 ótimas músicas, algumas punk rock e outras não, são mais do que suficiente para garantir lugar na lista.

Hot Water Music - Caution (2002)
Baixo e bateria segurando a casa em pé, duas guitarras tocando linhas melódicas muitas vezes diferentes uma da outra. Por cima, 
Um vocal rouco e outro vocal ainda mais rouco, cantando melodias que quebram versos pela metade e que se sobrepõe ao instrumental imprevisível. Os truezões vão dizer que Caution é uma versão diluída e comercial do que a banda tinha feito até ali na sua carreira, mas eu acho que diminuir um pouco o caos post hardcore e focar em estruturas e arranjos um pouco mais convencionais tornou a banda ainda mais interessante e produziu um álbum quase perfeito, em que os dois compositores se complementam e entregam um som pesado e cheio de letras e refrões memoráveis. Até ali, ninguém esperava que a banda produzisse hits, mas "Remedy", "Trusty Chords" e "Wayfarer" são exatamente isso. "Alright For Now" dá mais espaço para o baixo brilhar e também merece ser mencionada entre as melhores do disco.

Inocentes - Pânico em SP (1986, 2011)
A discografia de bandas brasileiras é geralmente muito confusa, com muitas regravações de músicas e mais discos ao vivo e compilações do que álbuns de estúdio com inéditas. Os Inocentes elevam isso à 10ª potencia, com as mesmas musicas regravadas umas 57 vezes, um disco de estreia censurado inteiramente pela ditadura e que só saiu muitos anos depois, um album que só saiu em K7 e só foi editado em CD muito tempo depois, e esse Pânico em SP, que tem 3 versões diferentes: a primeira é um EP com 6 musicas lançado em 1986 e por alguma razão chamado de mini-LP, a segunda é uma reedição de 2011 que traz mais 6 faixas que não parecem ter sido gravadas juntas, apesar de serem ótimas, e a terceira é a reedição de 2021 com as 6 musicas "originais" e mais 2 faixas ao vivo. Eu escolho ouvir a reedição de 2011, com 12 faixas. Quanto mais músicas boas, melhor! Os destaques são a faixa-título, "Expresso Oriente" e "Ele Disse Não", clássicos dos Inocentes, que são de longe a melhor banda punk brasileira dos anos 80

Less Than Jake - Hello Rockview (1998)
Ska punk? Pop Punk com sopros? Funciona do mesmo jeito. Eu falei 
muito de energia nessa lista e, bom, ninguém tem um som com mais energia que o quinteto da Flórida. É realmente difícil ficar parado ouvindo esse álbum, eu já tentei incontáveis vezes. O destaque aqui fica para as várias dinâmicas e interseções entre os dois vocais do grupo e para a relação de amor e ódio com a sua cidade pequena, a vontade de sair fora, mas o orgulho de ter ficado para contar as histórias dos tipos esquisitos e dos punks divertidos e deprimentes do lugar. Minhas preferidas são "History of a Boring Town", "All my Friends are Metalheads" e a punk "Help Save the Youth of America from Exploding".

The Living End - The Living End (1998)
O álbum de estreia do trio australiano 
se equilibra entre o punk rock e o rockabilly que tinha sido a principal influencia da banda nos EPs que antecederam esse LP. Também é marcante aqui como a banda soa um pouco mais antiga do que em lançamentos posteriores. Esse álbum homônimo poderia ter sido lançado em 77 e isso é bom! Diferencia a banda de zilhões de outras da virada do milênio e dá espaço para brilharem tanto a guitarra do vocalista Chris Cheney quanto o contrabaixo de Scott Owen, que dá um show ao vivo, até mesmo se equilibrando em cima do instrumento enquanto toca. E mesmo em músicas mais punk como a faixa de abertura "Prisoner of Society", há solos no melhor estilo anos cinquenta convivendo em harmonia com gang vocals e um ritmo incessante. É até difícil destacar as melhores músicas porque o disco é sensacional do inicio ao fim. "Trapped" tem que ser lembrada por incorporar um ska lento com sopros ao punkabilly sem soar fora de lugar. "All Torn Down" também brinca com ska nos versos enquanto a letra denuncia a destruição da história da cidade pela especulação imobiliária e sua ânsia de derrubar tudo que é antigo. Certamente é um tema original e inesperado para um disco punk funciona. Do lado mais punk, minhas preferidas são "Second Solution", "West End Riot" e "Have They Forgotten". Para fechar o disco, nada melhor que uma inesperada faixa instrumental chamada "Closing In". Chef's kiss!

The Mighty Mighty Bosstones - Let's Face It (1997)
Ao lado do Operation Ivy, os Bosstones foram os responsáveis por trazer o som do ska da Jamaica e da Inglaterra para os EUA e misturar o gênero com punk rock e o hardcore estadunidenses do fim dos anos 80, bem diferente daquela mescla britânica dos anos 70. Apesar de estar na labuta desde 1988 e ter boas músicas por uma década, o grupo de Boston nunca tinha feito um album memorável até Let's Face It. Sim, é menos hardcore que os primeiros, tem uma produção mais mainstream, mas é a melhor coleção de músicas que a banda já produziu. O mega hit "The Impression That I Get" é bom demais, apesar de ter cansado um pouco todo mundo. Outras músicas no disco também misturam rock e ska de forma a fazer seus pés quererem se mexer e seu corpo começar a skank sozinho, como as duas primeiras faixas, "Noise Brigade" e "Rascal King". Já a 
faixa-título é mais lenta e tem uma letra interessante contra a discriminação racial, de gênero ou de qualquer outro tipo. Ainda mais lentas e focadas no ska e até no dub são "Royal Oil" e "Another Drinkin' Song". A segunda metade do album tem mais do skacore pelo qual o grupo ficou conhecido. O destaque para mim é "Nevermind Me" que mistura mais estilos e muda de ritmo várias vezes. Ou seja, tem para todo mundo e marcou época, sendo um dos responsáveis pela explosão da 3ª onda do ska no mundo todo. Merecidamente, na minha opinião

Millencolin - Pennybridge Pioneers (2000)
Nos anos 90, o som do skatepunk californiano viajou o mundo e encontrou um sofá para passar a noite na Suécia e na Burning Heart records. A melhor banda dessa cena foi o MIllencolin. Pennybridge Pioneers foi um disco de transição para a banda, que estava fazendo uma longa migração de um som super rápido, com um tanto de ska e humor, para algo um pouco mais lento, mais garageiro e mais sério tanto na sonoridade quanto nas ideias. No meio desse caminho eles fizeram um disco maravilhoso, que marcou o período e o subgênero tanto quanto os melhores álbuns de bandas estadunidenses. A produção de Brett Gurewitz, dono da Epitaph Records e compositor/ guitarrista do Bad Religion, ajuda a dar um acabamento às músicas que faz elas se encaixarem perfeitamente no tracklist de qualquer Punk'O'Rama. Para ajudar a firmar o álbum no zeitgeist daquela cena, "No Cigar", a música que abre o disco, se tornou um clássico absoluto no jogo de videogame Tony Hawk's Pro Skater, ele mesmo um grande sucesso. Ou seja, ouvir os pioneiros de Örebro é ser transportado para a virada do milênio por pouco mais de meia hora. E depois apertar o repeat do discman.

MXPX – Slowly Going the Way of the Buffalo (1998)
Primeiro disco da banda por uma major, curiosamente tem uma gravação mais seca que o anterior, Life in General, o que dá um impressão de que o som é mais punk do que pop. Acho que isso trabalha a favor da banda, contrabalanceando um pouco toda a sacarose das melodias que grudam na sua cabeça. Uma coleção de 16 músicas tão perfeitas para o estilo que é incrível que o disco não tenha estourado comercialmente. 
"I'm Ok You're Ok", "Party, My House, Be There" e "What's Mine Is Yours" poderiam facilmente ter tocado nas rádios e em trilhas sonoras de filmes de high school. E isso é um elogio. São pop mas ainda tem uma pegada punk rock energética e empolgante. Já "Under Lock and Key", "Tomorrow's Another Day", "Cold and All Alone", "Invitation To Understand" e "Set The record Straight" são um pouco mais rápidas e skate punk. Todas excelentes. A banda também se dá bem em faixas mais hardcore como "First vs Tact", "The Downfall of the Western Civilization" e "Inches From Life". Para fechar, uma música instrumental com ares de trilha-sonora de filme de espionagem e ação. O único porém são as letras um pouquinho mais clichês e com uma ou duas menções religiosas que eu preferia que não estivessem lá, mas que não estragam a experiencia de escutar o melhor album da banda.

New Found Glory - New Found Glory (2000)
Como eu disse lá atrás, goste-se ou não, com o tempo, o punk rock virou um guarda-chuvas para vários estilos que derivaram do som original de 77. O NFG faz parte do lado mais pop desses estilos e foi parte essencial da explosão pop punk que aconteceu após o lançamento de Enema Of The State, do Blink 182, em 1999. O segundo disco da banda estadunidense trás melodias pop açucaradas pareadas a instrumentais com influencias de Descendents e do hardcore de Nova Iorque, tudo polido e envelopado para tocar em filmes de comédia adolescentes. Falando assim, aprece ruim, mas não é. É um som intrinsecamente jovem, feito para ouvir com a sua punk rock girl e andar de skate em tardes ensolaradas. Se esse não é o espírito do rock n roll dos anos 50 que os Ramones e tantos outras bandas queriam retomar, eu não sei o que é.

NOFX - Pump Up The Valium (2000)
Esse não é um dos albums mais lembrados da banda californiana, mas, para mim, só fica atrás do clássico Punk in Drublic. Para começar, o disco soa bem demais. A produção alcançou um som cheio, em que se escuta cada instrumento claramente e os graves tem mais presença do que na maioria das outras gravações do quarteto. Os solos de guitarra do El Hefe soam ótimos e empolgantes. Só uma das 14 músicas é pulável, a joke song "My Vagina" nem faz rir nem empolga sonoramente. Todas as outras 13 faixas são ótimas, incluindo a introdução. "Dinosaurs Will Die" é um clássico profético, uma das melhores musicas da banda. "Theme From a NOFX Album" é uma polka/punk rock divertida e empolgante, além de uma das melhores musicas de encerramento de um disco que eu já ouvi. A letra é uma bela homenagem aos próprios membros da banda e aos amigos/profissionais que trabalham com eles. Outras favoritas são "What's The Matter With Parents Today", Clams Have Feelings Too", "Pharmacist's Daughter" e "Bottles To The Ground". Mais consistente e bem acabado que o napoletano.

Nothington - Borrowed Time (2011)
O que diferencia o Nothington em meio à onda de bandas de 
pop punk com vocal rouco e letras para adultos que surgiu no final dos anos 2000 e inicio dos anos 2010 e ficou conhecido com orgcore é a capacidade de criar melodias que simplesmente não saem da cabeça, algo geralmente associado ao ramonescore, o subgênero do punk rock mais focado nas melodias bubblegum dos anos 50 e 60. Mesmo que não se saiba nenhuma letras, os refrões de músicas como "Captive Audience", 'Where I Cant Be Found","The Escapist" e "Ordinary Lives" são tão cantáveis que você sai por aí cantarolando sem nem perceber. Sugiro fortemente ouvir esse album umas duas vezes e ver se também tem esse efeito sobre você.

Offspring - Ignition (1992)
Se os Ramones contavam até 4 para começar a tocar suas canções, o Offspring emenda um palavrão 5 vezes logo antes de "Session", a primeira faixa do seu segundo disco. É um ótima música, empolgante, com um bom refrão e uma bateria quase robótica marcando o ritmo acelerado. Mas Ignition não é só skate punk. Ele marca a transição da banda de um som muito influenciado por TSOL, Agent Orange e Dead Kennedys em seu primeiro trabalho, para o som rápido mas pop que adotariam no seu terceiro disco, o mega sucesso Smash. E isso é bom. Abre espaço para faixas rápidas como "Get It Right" e "Burn It Up" conviverem com outras mais midtempo, com mudanças de ritmo e guitarras mais inventivas como "
Kick Him When He's Down". Mas os destaques são a punk "LAPD", que denuncia a violência policial no contexto do assassinato de Rodney King e os protestos que se seguiram, e a lenta e atmosférica "Dirty Magic", com um riff de guitarra que lembra The Cure e um refrão marcante. Além disso, algumas das letras chamam atenção pelo seu humor negro e facetious, algo que era bem comum no disco anterior e que vai sumindo ao longo da carreira da banda.

Operation Ivy - Energy (1989)
Dá para dizer que a 3ª onda do ska, o ska punk estadunidense, começa em 1989, com o lançamento do primeiro disco dos Mighty Mighty Bosstones e do único LP do Operation Ivy. Mas se os Bostoness demorariam quase uma década para gravar um grande album, o Op Ivy chegou com um chute na porta e logo em seguida implodiu. No curto período em que existiu deixou alguns singles, um EP e um LP urgente e original, que acordou a cena californiana para a mistura de punk com uma versão acelerada do ska jamaicano e do 2 Tone inglês. A banda também ganhou um status cult após o Rancid, formado por dois membros do Operation Ivy (o vocalista e guitarrista Tim Armstrong e o baixista Matt Freeman), fazer sucesso 
no meio dos anos 90. Mas no Op Ivy, o principal compositor era o vocalista Jesse Michaels. Minhas músicas preferidas do disco são "Sound System", "The Crown", "Unity", "Artificial Life" e "Big City". Em termos de produção e gravação, Energy está do lado mais punk e independente, com um som cru e cheio de arestas deixadas sem aparar, que adiciona uma sensação de estar presente em um show da banda no Gilman Street.

Pennywise - Straight Ahead (1999)
17 exemplos perfeitos do hardcore melódico e skate punk californianos em um só disco. Não dá para ficar melhor. Em 1999, o Pennywise já tinha lançado 5 álbuns e já tinham alguns hits underground, mas ainda não tinham produzido um conjunto de músicas tão bom quanto Straight Ahead. O inicio do disco é matador, com várias faixas energéticas, rápidas e melódicas. Destaque para "Victim of Reality", uma das minhas preferidas desde que escutei pela primeira vez. O ritmo quase não desacelera até o final. A exceção é a única faixa mais pop, "Aliens", que é muito boa e tem lugar garantido nas apresentações ao vivo do quarteto até hoje. Outros destaques são "Can't Believe It", "Straight Ahead", "Cant Take Anymore" e "Badge of Pride". As letras são políticas. Denunciam a ganância dos poderosos e a violência urbana. E defendem a capacidade de cada um de decidir viver como bem entende, o orgulho de ser um outsider, e a necessidade de união no hardcore. São simples, diretas e sinceras. Tudo que se espera de uma banda do estilo.

Ramones - Leave Home (1977)
Todos os 4 primeiros são ótimos, mas todos também são bem parecidos e até se misturam um pouco na minha cabeça. Eu culpo o It's Alive, melhor disco ao vivo do mundo exatamente por compilar as melhores músicas dos primeiros 4 discos dos Ramones. O primeirão tem a pior produção, e isso atrapalha um pouco. É para ser simples e sujinho, mas não precisava exagerar. Já o segundo, Leave Home, trás uma produção melhor e mais diversidade das composições (dentro dos parâmetros ramônicos), sem deixar de entregar o minimalismo, a energia e as melodias inspiradas. E o tracklist é impecável, sem nenhum skip. "You're Gonna Kill That Girl", "Commando", "Swallow My Pride", e "Suzy is a Headbanger" são as minhas preferidas. As duas baladas, "I remember You" e "Oh Oh, I love Her So", também são ótimas.

Ramones - Mondo Bizarro (1992)
Vou cometer heresia aqui e dizer que esse é o disco dos Ramones com mais músicas que eu adoro. Eu sei, eu sei, não é legal gostar dessa final da banda, o Dee Dee já não está lá, apesar de ter composto várias das músicas. Mas é o que é. Mondo Bizarro não tem nenhuma música ruim, tem talvez uma música mais ou menos, "Anxiety". Todas as outras são ótimas. "Censorshit" é uma das poucas musicas políticas da banda, denunciando a perseguição de Tiper Gore à indústria musical e tudo que não fosse 100% kid friendly em mais um momento macartista da história americana. "Poison Heart" é a música em que o ex-baixista e compositor Dee Dee fala de forma mais sincera sobre si mesmo. Um clássico e um quase hit comercial. As duas músicas cantadas por CJ, "Main Man" e "Strength To Endure", soam modernas e se encaixam perfeitamente. "It's Gonna Be Alright" é uma daquelas faixas que esquenta o coração dos fãs. A experimentação vampiresca de "Take it as it Comes" funciona bem e entrega algo diferente, com órgãos típicos de filmes de terror e de garage rock. "I Won't Let It Happen" é uma boa balada sessentista daquelas que Joey tanto gostava, e "Cabbies On Crack" é pesada e engraçada, além de ter rendido um videoclipe impagável. Para fechar, "Touring" é uma regravação que dá um acabamento mas punk rock à faixa que sofria sob a produção cafona do álbum "Pleasant Dreams". Discasso subestimado.

Rancid - Rancid (2000)
O quinto album da banda é o mais rápido e pesado da discografia deles. Muito hardcore old school e street punk, quase nenhum ska. Mas mesmo com esse foco e uma produção que amplia essa atmosfera sujona do disco, muitas das músicas tem os refrões e apelo pop que fizeram de ...And Out Come the Wolves um sucesso enorme. Isso é importante porque dá variedade ao álbum, impedindo que ele fique repetitivo. O disco não tem skips, mas minhas favoritas são "Poison", "Not to Regret", "Axiom" e "Black Derby Jacket". Alguns acham 22 músicas um exagero, mas eu acho que as músicas curtas se encaixam e o ritmo flui bem. É uma estratégia que também funciona em Let's Go (1994) e Life Wont Wait (1998), outros dois belos lançamentos que por pouco não aparecem nessa lista. 

Red City Radio - Titles (2013)
O estilo que ficou conhecido como orgcore já estava bem estabelecido quando o Red City Radio despontou no underground estadunidense, mas poucas vezes o "pop punk com vocal rouco e letras para adultos" teve um exemplo tão perfeito quanto no segundo lançamento do quarteto de Oklahoma City. Com dois vocalistas e compositores, o tracklist é diverso e as músicas de cada um dos dois tem funcionam bem juntas, mas têm claras diferenças de estilo. Influencias de hard rock também são importantes, com solos empolgantes e pausas em meio ao momentos mais pesados que raramente são são vistas no pop punk tradicional. Minhas preferidas são "Two Notes Shy of an Octave", "The Silence Between" e "Show Me on the Doll Where the Music Touched You".

The Rezillos – (Can't Stand) The Rezillos (1978)
Outra banda britânica que operava no espaço entre o punk rock e a new wave, os Rezillos produziram o disco mais divertido da primeira geração punk. Com um vocalista masculino e uma feminina, a banda de Edimburgo conseguiu criar uma dinâmica que a diferencia de tantas outras do período, com ambos contribuindo de forma versátil tanto para o lado mais pop quanto para o lado mais rock n roll do álbum. O hit comercial foi "Top Of the Pops", mas essa é uma das faixas menos interessantes do disco, que merece ser ouvido por inteiro e mais lembrado.

Rise Against - Siren Song Of The Counter Culture (2004)
"State Of The Union" abre o terceiro álbum da banda estadunidense com peso e velocidade. É um hardcore com breakdowns, gang vocals e gritos roucos do vocalista Tim 
McIlrath, que funciona como um cartão de visitas. Mas o disco não é todo tão agressivo assim. Seu trunfo é exatamente a variedade de sons e temas. Críticas ao status quo socioeconômico, à guerra e à crise climática se misturam com canções pessoais sobre memórias, términos, e autorrealização. "Life less Frightening" é um exemplo desse outro lado do álbum, com um som mais radiofônico. É boa, mas para mim os destaques são "The First Drop", um skate punk com refrão melódico e backing vocals ainda mais melódicos contrabalanceando as letras de protesto; "Give It All", o primeiro single lançado, com um refrão perfeito para cantar junto a plenos pulmões e um videoclipe empolgante; e "To Them This Streets Belong", um chamado para protestar nas ruas pelos seus ideais. A única música pulável é a acústica "Swing Life Away". Cafona e desnecessária.

Stiff Little Fingers - Inflammable Material (1979)
Cantar sobre política na Irlanda do Norte durante a época dos Troubles não era para qualquer um, o risco à sua vida era real. Fazer isso sem se alinhar a nenhuma das duas facções, era ainda mais desafiador. Mas esse grupo de Belfast fez exatamente isso. Mais importante que tudo isso, fez um disco urgente, com músicas inesquecíveis, cuja qualidade brilha mesmo por trás de uma produção excessivamente tosca. "Alternative Ulster", "Suspect Device" e "Wasted Life" são hinos punk e se juntam a outras faixas pacifistas, antirracistas e de denuncia social, de qualidade um pouco irregular, mas sempre interessantes de alguma forma.

Sum 41 - All Killer, No Filler (2001)
Outro representante do lado mais pop do grande guarda chuvas de estilos que é o punk rock, o Sum 41 traz o diferencial de mesclar um pouco de metal (e de rap, just for fun) no pop punk adolescente típico do inicio do milênio. Mas isso seria só um gimmick se a banda não tivesse músicas de qualidade para sustentar os riffs e solos metaleiros em meio 
às letras adolescentes e aos refrões para cantar junto. Tudo isso transforma a banda canadense na mais pesada do subgênero sem deixar de fazer os punks velhos torcerem o nariz, o que é parte do apelo. Alguns poderiam preferir o segundo album da banda, Does This Look Infected, por ser mais pesado, mas sem esse álbum de estreia um pouco mais pop, mas bom do inicio ao fim e cheio de hits, a banda não teria colocado uma horda de adolescentes para curtir punk rock e seus subgêneros.

The Undertones - The Undertones (1979)
Ouvindo com frieza, esse disco de estreia do quarteto norte-irlandês é mais new wave do que punk rock, mas um álbum que conta com o hino adolescente "Teenage Kicks" não pode ser ignorado. Talvez seja um exagero chamar de pop punk, mas mesmo quando prevalecem os teclados e as harmonias vocais do pop sessentista, as 16 faixas são sempre empolgantes e dançantes, com um ritmo acelerado e as guitarras no comando. Além da maravilhosa "Teenage Kicks", destacam-se "Male Model", "I Gotta Getta" e "Get Over You".

The Vibrators - Pure Mania (1977)
Rock n roll, punk rock e new wave se misturam no álbum de estreia da banda londrina. O hit "Baby Baby" é uma balada meio melosa e sem graça, em que só o solo de guitarra se salva. As duas melhores músicas, "Into the Future..." e "Bad Time", abrem e fecham o disco, respectivamente. No meio do caminho, "London Girls" e "Whips and Furs" se destacam.  

Wire - Pink Flag (1977)
21 faixas em 35 minutos de punk rock, post-punk e rock alternativo. Pink Flag é o primeiro em vários sentidos e influenciou o rock inglês das 3 décadas seguintes mais do que qualquer outro LP. Não é o disco mais agressivo, sujo, veloz ou punk dessa lista (apesar de também ter momentos assim), mas acerta em cheio no minimalismo e na coragem de não alongar as músicas mais do que elas pedem para se conformar ao padrão, uma decisão que, junto com a discografia dos Ramones, serviu de lição para bandas tão diferentes quanto Husker Dü, Guided By Voices, Rancid e Joyce Manor.

Zander - Brasa (2010)
Hardcore melódico, midwestern emo, punk 'n' roll e até um pouco de MPB. Tudo misturado em um LP de estreia que segue o caminho já apontado pelos dois EP anteriores e pelas bandas anteriores de Gabriel Zander, como Deluxe Trio e Noção de Nada. Mas Brasa soa como o resultado final de toda essa caminhada sonora de quase duas décadas. Aqui a personalidade do compositor parece totalmente formada e capturada em 11 faixas que devem ser referencia para todo mundo que quer fazer música pesada em português. "Auto Falantes", "Motim", "Meia Noite" e "Humaitá" são as minhas sugestões para ouvir caso você não tenha meio hora. Caso tenha, faça um favor a sim mesmo e escute o disco inteiro.

sábado, 22 de agosto de 2026

O punk rock e a lista da Rolling Stone

No aniversário de 50 anos do lançamento do primeiro disco dos Ramones, considerado por muitos o marco zero do punk rock, a Rolling Stone lançou uma lista com os 100 melhores discos de punk escolhidos pelos jornalistas americanos da publicação. Minha maior critica é que a lista, obviamente, deveria ser de 50 álbuns, mas enfim...

Brincadeiras à parte, eu não vou entrar em polêmicas aqui, não tenho mais 15 anos de idade. Mas antes de continuar, tenho que fazer uma observação. Para qualquer lista do tipo, você tem que definir do que está falando. É de punk rock como um gênero musical? Ou como um movimento cultural? Se sim, qual? O de Nova Iorque? O de Londres? O dos anos 70? Ou os movimentos que nasceram desses durante os anos 80 e 90? Ou estamos falando de um estado de espirito? Uma atitude punk? Parece overthinking mas não é. Uma escolha faz você colocar Patty Smith no topo da lista, outra permite você incluir Paramore.

Minha lista não vai ter 50 discos porque sou hipócrita e preguiçoso, mas vou definir do que estou falando: de punk rock como um gênero guarda-chuva, embaixo do qual cabem todos os subgêneros que derivaram da musica punk original de 1976, com suas principais características: canções simples, relativamente curtas, com ritmo acelerado e bastante guitarra distorcida, tocada principalmente em power chords e sem muito virtuosismo. Claro que não precisa marcar todos esses boxes ao mesmo tempo, não se tratam de amarras (isso não seria nada punk), mas um guia geral da direção e do feeling da música.

Também não vou entrar em questões ideológicas, se fulano é um vendido, se não tem atitude, se é um poser, etc. Tirando nazis e o Supla, qualquer música com um som punk rock tá valendo. Tá bom, né? Então esses são os 10 melhores discos de punk rock, na minha humilde opinião (o que é um pouco diferente dos meus preferidos, ou os que eu mais escuto, mas enfim, deu de introdução infinita):

10 Social Distortion – White Light, White Heat, White Trash (1996)
Tem gente que prefere o lado mais country ou mais classic rock da banda, mas eu acho que a pegada punk é essencial para que as músicas de Mike Ness alcancem todo o seu potencial. White Light... é o album que mais deixa esse lado do Social D florescer desde o primeiro lançamento, de 1983. O álbum abre com "Dear Lover" um belo punk rock n roll que dá o tom do disco que vamos escutar. Em seguida, vem a sequencia imbatível formada por "Don't Drag Me Down", "Untitled" e "I Was Wrong". O jogo já está ganho, mas o álbum ainda tem muito a oferecer. As faixas mais classicamente punk rock do disco são as ótimas "Down on The World Again" e "Pleasure Seeker". No outro extremo do som da banda, a balada "When the Angels Sing" foi um dos singles e também é merecidamente um clássico da discografia do quarteto. A outra música que merece destaque e que deveria ser mais conhecida é "Crown Of Thorns". Com maior influencia de blues e country, ela tem um refrão maravilhosamente grudento, solos de guitarra que te dão vontade de ser guitarrista, e uma letra com a marca registrada do grupo, com reflexões sobre a solidão, arrependimentos, as pedras no caminho de cada um, os erros e acertos, os caminhos já trilhados e aqueles ainda a trilhar, além dos amores vividos e deixados pelo caminho. Esse é o tom dos assuntos tratados no álbum, É um resumo da vida vivida por um punk que já passou alguns dias na prisão, já viu sua banda se desfazer mais de uma vez, já lutou contra os vícios e continua de pé. Além das músicas em si, a produção de White Light... merece elogios, sem medo de deixar o som de estúdio com um feeling de gravação ao vivo. Isso se mostra essencial em faixas como "Gotta Know The Rules" e em "Under My Thumb", cover dos Rolling Stones que soa mais pesada do que qualquer versão de qualquer música dos Stones que eu já ouvi. Sem nenhuma música ruim, é de longe o melhor disco do Social Distortion na minha opinião e deveria ser ouvido por todos os punk rockers.

09 The Clash - The Clash (1977)
Calma, calma... London Calling não é um disco de punk rock. Pronto, falei! É um ótimo disco, talvez um dos melhores discos. Merece estar no topo de muitas listas. Mas não tem mais 2 músicas punk, sendo gentil. Mas o primeirão é punk rock, sem dúvidas. E é bom demais! Da primeira a última faixa e sem pular nenhuma, o Clash ajuda a estabelecer as bases de um gênero musical que ainda estava nascendo e se entendendo. É político mas não é só isso: pode ser sobre amor ou frustrações individuais com a falta de empregos, ou mesmo contar histórias sobre
personagens urbanos. Mas sempre com o 'bullshit detector" ligado, sem dar espaço para o tradicionalismo, para os ricos e sua proximidade com o poder. Não, punk fala das ruas, do metrô lotado, da mãe que perdeu o filho pra uma guerra que ele não escolheu lutar em um lugar onde ela nunca nem ouviu falar. Musicalmente, o punk conversa com tipos mais antigos de rock e até com ritmos jamaicanos, mas o resultado tem que ser um pouquinho sujo, contrabalancear a doçura das melodias com o amargor das guitarras altas e da bateria marcada que não te deixa ficar sentado. Talvez os 3 acordes possam ser 4 ou até 5, mas o minimalismo dos Ramones tem que estar lá. E tudo isso está nesse álbum maravilhoso.

08 Ramones - Ramones (1976)
Considerado o primeiro álbum de punk rock da história, o disco homônimo do quarteto de New York City é um exercício de minimalismo. As músicas em si, o tempo total do disco, a capa, a produção, tudo é direto e reto, sem nenhum exagero, sem nada sobrando. A guitarra e baixo tocam os poucos acordes de cada música sem nenhum floreio, a bateria econômica só marca o ritmo, e os vocais de Joey são o que adicionam um algo a mais, um charme que balanceia o instrumental agressivo. O resultado é energético mas dançante, com melodias homenageando o rock dos anos 50 e início dos anos 60. Destaque para as letras perturbadas e engraçadas, que incluem geopolítica da guerra fria, cartas de amor, punks cheirando cola, michês trabalhando em esquinas novaiorquinas e assassinado seus clientes, e namoradas sendo massacradas por motoserras. "Judy Is a Punk", "Havanna Affair" e "Today Your Love, Tomorrow The World" são minhas preferidas, mas claro que "Blitzkrieg Bop" também está entre os destaques. Eles só não precisavam ter economizado tanto na gravação. Os 3 discos seguintes dão um passo adiante e utilizam uma produção ainda minimalista mas com uma gravação mais cuidadosa que potencializa as características individuais de cada música. Por outro lado, nenhum deles marcou o nascimento de um gênero e influenciou a formação e o som de tantas bandas ao longo das décadas seguintes quanto esse disco. Essencial.

07 Bad Religion - The Grey Race (1996)
Da mesma forma que os Ramones, o Bad Religion não tem um álbum que seja de longe o maior destaque da longa carreira. A banda tem 2 trilogias que demarcam aquelas que são consideradas as melhores fases da banda, entre 1988 e 1990, e entre 2002 e 2007. Perdido ali no meio está Grey Race, o primeiro disco da banda sem Mr. Brett, um dos dois compositores do grupo. O outro é o vocalista Greg Graffin, que talvez tenha sentido vontade de provar que poderia continuar sozinho e escreveu 15 músicas maravilhosas. Cerca de metade delas são mais velozes e a outra metade mais midtempo. Todas elas apostam nas melodias, nas harmonias vocais e em solos simples, curtos e bem encaixados, cortesia do recém chegado guitarrista, Brian Baker. Algumas deixam transparecer em suas melodias e batidas um toque de country, gênero que o vocalista também gosta muito. Nas letras, o Dr. Graffin, professor de biologia, brilha como sempre, evitando ser muito banal ou excessivamente direto, e apostando em reflexões e ideias filosóficas e cientificas para falar sobre temas caros a todas as bandas punk. Dá certo e produz um belo disco com destaque para "Them and Us", "Punk Rock Song", "Pity the Dead', "Streets of America", "Come Join Us" e uma das minhas músicas preferidas ever, "Cease".

06 Offspring - Smash (1994)
Desculpa desapontar os puristas. Depois de 35 anos de carreira dá pra dizer com certeza que o Offspring não é uma das 10 melhores bandas punk da história, mas Smash é um dos 10 melhores discos e pertence a esse grupo seleto, sim. A melhor qualidade do álbum é que ele fica naquele ponto perfeito em que ainda é e soa underground o suficiente, com suas influencias de Agent Orange e TSOL, mas já tem aquele apelo pop que faz multidões pularem, entrarem na roda e cantarem juntas. Por isso, funciona como a ponte perfeita entre um som punk mais antigo, marcado pelas guitarras surf-punk ou árabe-punk de Kevin Noodles, e o skate punk mega veloz que foi a marca do gênero nos anos 90, especialmente na California, mas também no mundo. A primeira metade do disco é perfeita e levanta até cadaver. Destaque para as letras ainda politicamente incorretas e sarcásticas, que muitas vezes colocam Dexter Holland cantando do ponto de vista do motorista raivoso, do corno, do genocida, do gangueiro. A influencia é direta: Jello Biafra. Para além dessa peculiaridade, o mundo do qual Smash fala é dark, mas a música não. É pesada, veloz, energética e empolgante, mas dá ao ouvinte vontade de levantar e ir andar de skate nas ladeiras de LA, montar uma banda ou entrar numa roda-punk. Não é a toa que se trata do disco independente mais vendido da história dos EUA (e do mundo). Só não fica mais alto na lista porque a segunda metade não é perfeita como a primeira, apesar de ainda ser muito boa.

05 Dead Kennedys - Fresh Fruit For Rotten Vegetables (1980)
As guitarras surf-punk de East Bay Ray e os vocais debochados de Jello Biafra são o veiculo perfeito para as letras sarcásticas da banda, muitas vezes cantadas do ponto de vista de quem estão está criticando. E eles criticam muita gente! De políticos de direita a politicos de esquerda que não são assim tão diferentes dos de direita, até os donos de imóveis que eles sugerem que sejam linchados logo antes de um maravilhoso solo de guitarra totalmente surf rock que evoca ondas do pacífico. Também sobra pros liberais da São Francisco que é casa da banda. Em vez de elogios à contracultura e liberalismo social dos hippies, a banda sugere que o pessoal vá tirar umas férias no Camboja pra cair na real. E ainda há espaço para denúncias sobre guerra química, limpeza social e os excessos do mundo do entretimento, em uma releitura de Viva Las Vegas que abusa da ironia. Do inicio ao fim, o álbum é um pacote perfeito, veloz e furioso, que funciona como uma ponte sonora e estilística entre a 1ª e a 2ª onda punk. E o melhor/pior de tudo: ainda soa atual. Infelizmente California Uber Alles poderia trocar de CEP e denunciar o regime atual dos EUA com exatidão.

04 Sex Pistols - Never Mind The Bollocks (1977)
Eu sei, os Ramones e o Clash tem carreiras muito mais completas e interessantes, com muito mais musicas de destaque. Mas nunca fizeram um disco tão perfeito quanto o único disco de verdade dos Pistols. No skips, no filler, todas as musicas são destaque, o som é cheio e soa moderno até hoje, muito mais que qualquer outro álbum das bandas originais de 1977. Ainda guardando um pouco do som do rock de garagem do proto punk, as músicas soam agressivas e os vocais debochados de Johnny Rotten casam perfeitamente com o instrumental e com as letras sarcásticas e politicamente incorretas. O resultado é o disco que melhor representa o lado provocativo e niilista do punk. O veneno é direcionado contra quase tudo, mas atinge especialmente as tradições britânicas em geral, e
a monarquia e a rainha em particular, um fossil de um império moribundo que os Pistols queriam terminar de enterrar. Se não há futuro pra Inglaterra e pros ingleses, que se destrua tudo e dane-se. Talvez não funcione tão bem no mundo real, mas funciona perfeitamente ao longo dessas 11 músicas.

03 NOFX - Punk in Drublic (1994)
Sabe os temas dos quais o Green day fala em Dookie com uma leveza adolescente? Pois é, aqui eles não são leves nem adolescentes. Moradia precária quando você sai de casa vira squat ou crack house, maconha vira heroína, masturbação vira bdsm, o trabalho ruim no fast food do shopping vira prostituição. E a música acompanha essa tendencia. Até tem bastante pop punk em Punk in Drublic, mas é um pop punk mais sujo, com vocais mais ríspidos, bateria mais rápida e
guitarras mais pesadas, com influencia de metal. E logo o som vira skate punk e hardcore melódico. E tem até um pouco de ska. Ou seja, o estilo que definiu a cena californiana de punk rock rock dos anos 90. Dos vídeos de esportes radicais, dos X Games e dos videogames do Tony Hawk. Punk in Drublic é o melhor representante desse subgênero e da própria banda. O disco abre com o maior sucesso do grupo, "Linoleum", uma música que não tem refrão, nunca foi lançada como single ou ganhou um videoclipe. Assim é o NOFX. 17 músicas, 16 delas perfeitas (a outra é uma música piada, algo quase obrigatório em álbuns dos anos 90), com destaque para a maravilhosa "Lory Meyers".

02 Green Day - Dookie (1994)
Pop punk em estado puro. Simples, irreverente, empolgante. O que o Green Day faz em Dookie é aperfeiçoar o que já tinha feito nos seus 2 primeiros discos: pegar um tanto Ramones e Buzzcocks, adicionar um pouco de Husker Dü e Replacements, e filtrar tudo isso na sonoridade e produção do rock alternativo dos anos 90. Parece simples mas é muito difícil de acertar o ponto. E de criar melodias tão memoráveis, r
efrões pop perfeitos em músicas que grudam no ouvido, mas que ainda são rápidas, pesadas e roqueiras o suficiente para não soarem inofensivas. As letras exploram, com leveza e irreverencia, temas como coração quebrado, maconha, masturbação, o fim da adolescência, bissexualidade, moradia precária e problemas de saúde mental. O resultado é um disco divertido e cheio de energia, feito para ser ouvido em uma tarde de verão, mas sem esquecer que o mundo é meio errado, as pessoas meio esquisitas e tudo meio fora de lugar. Além de todas as clássicas (quase metade do álbum!), meu destaque vai para a esquecida Coming Clean.

01 Rancid - ... and out come the wolves (1995)
Disco perfeito do início ao fim, sem nenhuma música ruim e com hits imbatíveis. Refrões que não desgrudam da cabeça, riffs legais e um baixo absolutamente memorável ao longo de quase todas as 19 faixas. A alternância entre dois vocais com personalidades bem diferentes mas complementares também funciona muito bem. 
A produção é ótima, dando destaque para o maravilhoso baixo de Matt Freeman e soando polida o suficiente para que o disco seja acessível, mas sem limpar demais o som e dando espaço para a banda fazer o que faz melhor: navegar entre hardcore, oi!, punk 77, pop punk e ska de uma forma fluída, sem que você nem perceba direito que são estilos bem diferentes, que não deveriam funcionar tão bem juntos quanto funcionam nas músicas do Rancid. Para amarrar tudo, as letras do álbum contam histórias do underground da San Francisco Bay Area e de New York, com personagens que vão de criminosos comuns e pequenos mafiosos a punk rockers, moonstompers e rude girls perdidos pelos ônibus e arcades do lado b dos Estados Unidos. Irretocável.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

2026: O ROCK AINDA RESPIRA ou COMO SE FAZ ISSO MESMO?

Desde 1950 e muito se discute se o rock morreu. Desde então a resposta é: depende. Se você estiver falando estritamente do rock n roll estadunidense dos anos 50, a resposta é sim. Bom, mais ou menos, mas meio que sim. O que veio depois, seja a invasão britânica ou o rock dos hippies da geração Woodstock definitivamente não era a mesma coisa. Dos anos 70 para a frente então, nem se fala. Mas claro que o rock não morreu. Sob qualquer outro enfoque, estava apenas mudando, evoluindo, explorando. E continuou relevante por mais uns 50 anos.

Hoje em dia, 60 e tantos anos depois, quando se pergunta se o rock morreu, a resposta pode ser sim ou não. Do ponto de vista comercial, morreu. Em todo o mundo. Também morreu como um fenômeno de massas, como trilha sonora para a juventude. A geração Z escuta muito pouco rock. O gênero musical não dita mais a moda, gírias ou comportamentos. Ninguém quer começar uma banda na garagem. "Rockstars" nem existem mais e hoje quem faz o papel é algum cantor de uma banda de K Pop, provavelmente.

Mas se você estiver falando de uma morte da produção musical, do lançamento de novos discos de rock, a resposta é não, claro que não morreu. e nem nunca vai morrer. Bom, pelo menos nas próximas décadas, eu acho. Quem sabe... O ponto é que continuam existindo bandas muito boas, antigas ou novas, lançando músicas muito boas de diferentes subgêneros desse conjunto de sons que chamamos de rock (and roll).

Mas assim como o blues ou jazz, o rock passou para outra fase da vida. Não vai voltar às listas de mais tocadas dos streamings, não vai influenciar a cultura adolescente mainstream, não vai ser parte do acontecimento cultural que marcou o ano. Mas vai estar sempre ali, logo abaixo da superfície, cheio de novidades legais para quem curte esse tipo de coisa. Eu curto. Desde 1997. Acho que vou continuar curtindo enquanto respirar. E tiveram algumas coisas que eu curti em particular nesse ano de 2026:

O primeiro registro vai para o New Found Glory, que lançou o que provavelmente foi seu ultimo trabalho. É que Chad Gilbert, guitarrista e compositor da banda, já briga há um tempo contra o câncer e, infelizmente, a doença tá vencendo. Mas enquanto ainda pode, o cara continua produzindo sua arte e criou um ótimo disco. As primeiras 6 músicas de 'Listen Up!' são algumas das melhores que a banda produziu em 20 anos. Algumas das letras já são um olhar para trás, lembrando dos "bons tempos", mas não soam depressivas. Soam como uma celebração da banda, da vida. A segunda metade do disco é um pouco menos memorável, mas a ultima musica, "Frankenstein's Monster", vem com força e com uma bela letra para fechar o álbum da melhor forma possível. Pop punk fazendo o que pop punk faz de melhor.

Outra banda que segue a mesma vibe PMA é o Bouncing Souls, que lançou 'Born To Be', seu melhor disco desde 'Comet', de 2012. Assim como o disco do NFG, esse álbum também é curto, com apenas 10 músicas, o que parece ser uma moda de 2026. Talvez faça mesmo mais sentido no mundo do Spotify e concorrentes. Se é assim, que cortem os excessos e fiquem só com as melhores, como a banda de Nova Jersey fez. Destaque para "As One", um pouco mais pausada, com espaço para o baixo brilhar, uma leve pegada dub, mas com a energia lá em cima, e uma boa letra. "Only Echoes" é uma balada punk rock com influencia de The Cure e "Power" entrega o que o nome promete, e "Asshole Friends" é engraçada e sincera enquanto abre a roda punk.
'Born To Be' vale a pena ser ouvido do inicio a o fim.

Da mesma forma, 'Born to Kill' é enxuto e vale cada segun... bom, tem um cover cafona totalmente desnecessário, mas tirando essa, todas as outras músicas do novo disco do Social Distortion valem ser ouvidas. Depois de 15 anos, Mike Ness e sua gangue voltaram com força renovada e juntando praticamente todas as suas influencias: rock clássico, country, blues e punk rock. A produção um pouco mais sujinha se encaixa perfeitamente e potencializa as faixas, trazendo uma energia das apresentações ao vivo para as gravações de estúdio. Todas as músicas de trabalho estão logo no começo do disco (e são muito, muito boas), mas o lado b também merece atenção. "Over You" é sensacional e fecha o disco deixando o ouvinte querendo mais. Tomara que não demore outros 15 anos.

Já os Foo Fighters me surpreenderam com "Your Favorite Toy". Porque eles não lançavam nada realmente bom desde "Wasting Light", de 2011 (ou, para ser justo, do EP Saint Cecilia, de 2015). Mas também porque o single que dá nome ao álbum é bem ruim. A sorte é que todas as outras 9 musicas do disco são boas. Nem todas são ótimas, mas no skips. Os destaques são a porrada "Spit Shine", que mistura punk rock e berros a backing vocals melódicos no melhor estilo Kim Deal nos Pixies, a tensa e pausada "Child Actor", claramente uma analogia para a carreira do próprio Dave Grohl e sua dificuldade recente com o excesso de exposição e holofotes, e "Asking For A Friend", que fecha o disco indo de balada calminha a porradaria no final. O segundo single "Window" também tem seu charme, com sua melodia estilo "There's Nothing Left To Lose".

Entre bandas mais novas, o Grade 2 lançou o bom "Talk About It", que traz grande influencia de Rancid, assim como os discos anteriores já traziam. É punk rock bem melódico com pitadas de Oi! aqui e de ska ali. "Hanging On To You" é o destaque com seu refrão grudento e singalongs. Em seu 5º álbum, já da pra dizer que a banda não vai desenvolver um som próprio que seja inconfundível ou sua marca registrada, mas para quem gosta do estilo como eu, é um disco bem divertido que vale a pena ficar em rotação no carro.

Os canadenses do Riptides, que lançaram um dos melhores disco do ano passado, soltaram um novo EP esse ano chamado "Who goes There?". 4 músicas em 6 minutos e 15 segundos. Duas delas se destacam: "Dumb It Down" e "Bad Decisions". Na mesma pegada ramonescore, o Teenage Bottlerocket lançou o EP "The invisible man". Mas dessa vez eles pisaram no freio e trouxeram 4 músicas mais lentas, com uma certa melancolia nas melodias vocais e mais espaço para o baixo brilhar, principalmente em "You Made Me Get Called A Poser" e Pembrey's Face", as duas melhores faixas.

Com uma pegada mais skate punk, o Squirtgun voltou depois de muitos anos com o EP "Ghostly Sunflowers". Bom, são só 2 músicas, mas nenhuma delas é a música titulo então não da para chamar de single nem de saber qual faixa seria o lado a ou o lado b. Não importa, i guess. As 2 faixas são boas. "I'm The Ghost" é mais rápida e séria, "Sunflowers" é mais pop punk e ensolarada. Vale a pena ouvir ambas.

Ocupando o espaço entre o hardcore melódico, skate punk e pop punk, o Good Riddance lançou "Before The World Caves In". Um bom álbum, mas nada muito memorável. Deve ficar meio escondido na longa discografia da banda. Isso dito, vale escutar e colocar em alguma playlist as músicas "In Pieces", Devoid Of Faith" e "Drive Faster", a mais pop delas. Mas se você quiser algo mais hardcore, quase metal, o A Wilhelm Scream voltou à ativa e continuou de onde parou com o LP "Cheap Heat". Aqueles riffs rápidos e técnicos estão lá, os refrões nem sempre. De qualquer forma, é mais divertido que Propagandhi e duas faixas ficam na cabeça: "Poison II" e "I Got Tunnel Vision". A faixa de abertura Somebody's Gonna Die" também é empolgante.

No Brasil, os paulistanos do Em Chamas lançaram "Tied Up!", seu primeiro disco. 7 músicas em 15 minutos de puro hardcore em inglês, muito bem produzido. Se destacam as faixas "Old School Spirit" e "Welcome Sun". É isso. Não participo mais de perto do underground nacional e a informação não chega a quem não faz parte da cena. Talvez tenham outros disco bons de bandas brasileiras legais, mas eu simplesmente não sei.

De volta para o cenário internacional, mais precisamente ao mundo pós-hardcore, o Sparta lançou um "Cut A Silhouette". Destaque para "Everything You Say" e "Without Your Hands". Já o Quicksand lançou "Bring On The Psychics". Gostei da faixa-título e de "Cool Guy". De resto, os dois discos passam meio como música de fundo, um som legal mas que não faz você parar para escutar com mais atenção.

Já os canadenses do Flatliners continuam desafiando rótulos e mudando a cada disco. Dessa vez lançaram um disco mais hard rock que punk cheio de músicas com guitarras e vocais agressivos, mas sem inspiração ou energia e bem esquecíveis. Ainda assim se salvam "Good, You?", "Burn" e a esquisita e surpreendente "Pulpit". Da mesma forma, o Menzingers continuou seu caminho para longe do punk e em direção ao... dad rock, talvez? "Everything I Ever Saw" não é ruim nem bom e vai consolidando o apelido Mehzingers. Ainda assim, "Chance Encounters" e "Nobody's Heroes" se salvam e garantem seus lugares na tal playlist. Por pouco.

O Joyce Manor também lançou um novo disco, com 10 musicas em 19 minutos, apesar de não serem uma banda de grindcore ou street punk. Também são outro grupo que tem um pé no universo do punk rock, mas o resto do corpo é cada vez mais dad rock. De qualquer forma, "I Know Where Mark Chen Lives" se destaca muito e é de longe a melhor do disco. Playlist pra ela! 

Além disso, O Sugar voltou e lançou duas músicas. Boas, mas nada diferente do que Bob Mould vinha lançando em sua boa carreira solo. Vamos ver o que reservaram pra 2027. O Dillinger Four lançou o bom single "Don't Happy, Be Worry". O Basement lançou um disco que eu tentei ouvir várias vezes mas dormi em todas. De qualquer forma, o single "Wired" é legalzinho naquele estilo pós-grunge quase shoegaze que eles já traziam em seus últimos álbuns. O Superchunk lançou o single "I Don't Want You Anyway". Sempre bom, mas nada especial dessa vez. E o Afghan Whigs soltou o single "House of I", uma ótima música de uma banda a qual nunca dei muita atenção. Vale a pena ver o videoclipe.

No lado mais folk rock da força, a Courtney Barnett lançou o bom disco "Creature of Habit", com destaque para "Wonder", "Site Unseen" e "Mantis". Já Kurt Ville lançou "Philadelphia's Been Good to Me", com o bom single "Zoom 97". Honestamente não dediquei a esses lançamentos o tempo e atenção que eles mereciam, mas o ano só tem 8.760 horas. Uma pena, mas é como o universo funciona.

Ainda estamos no inicio de agosto, mas acho que já deu, né? O Dinosaur Jr. ainda deve lançar um disco mas, tirando isso, acho que 2026 já deu o que tinha que dar. A Copa do Mundo já acabou, ninguém merece a quantidade de lixo radioativo que vai explodir na nossa cara nesses eleições, podemos passar direto para a árvore enfeitada e o peru recheado, não? Virar a página? Bem vindo, 2027. Aqui no blog você já é realidade. Tchau! Alguém revisa esse texto, por favor. Alguém por aí?

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Os melhores álbuns de 2017

2017 passou rápido e como já é costume, perdi o lançamento de alguns dos melhores discos do ano, mas ao longo dos meses fui, aos poucos, descobrindo os novos sons de artistas legais, novatos e veteranos. Para começar, nesse ano, algumas bandas bem estabelecidas das quais eu gosto bastante lançaram álbuns bastante esquecíveis. O Foo Fighters, por exemplo, gravou Concrete and Gold, que deveria ser uma volta à simplicidade após os exageros do chato disco conceitual anterior, Sonic Highways. Nah. Ouvi duas vezes e desisti. Não há nada péssimo no disco, mas também não há nenhuma razão para ouvi-lo. Quase tudo ali, eles já fizeram bem melhor anteriormente. E as poucas novidades no som da banda erraram o alvo. Uma pena.

Algo parecido aconteceu com o Flogging Molly, que lançou Life Is Good em julho. Para ser justo, ouvi o disco bem mais do que duas vezes, mas ainda assim não fiquei com as músicas ou letras na cabeça e quando sinto vontade de ouvir a banda não penso nesse álbum. O grupo continua se aproximando cada vez mais de um folk irlandês tradicional e deixando o rock de lado. Isso não é necessariamente ruim e eu sempre gostei do lado mais acústico do quinteto, mas dessa vez não funcionou para mim.


Já outras bandas veteranas laçaram discos muito bons. O Hot Water Music, por exemplo, gravou Light It Up, que conta com muitas composições de Chuck Ragan e poucas de Chris Wollard. O som do álbum não fica muito distante daquele do disco anterior, o bom Exister. Algumas músicas mais rápidas, punk rock, outras mais lentas mas ainda assim pesadas e empolgantes, implorando por singalongs em apresentações ao vivo, e outras ainda um pouco mais próximas do trabalho solo de Ragan, mas com guitarras elétricas e produção roqueira. Nada inesperado ou fantástico, mas ainda assim bem legal.

Já o Rancid lançou Trouble Maker, que é muito melhor que seu trabalho anterior, o esquecível Honor Is All We Know. O disco tem uma urgência surpreendente. Há uns bons anos os vocais de Tim Armstrong não soavam tão fortes e a banda ainda incorporou o som Oi! que Lars Frederiksen vem fazendo no seu trabalho paralelo, Old Firm Casuals, de forma fluida no som já tradicional do Rancid. As letras também melhoraram um tanto, especialmente em Telegraph Avenue e I Kept A Promisse, lembrando o jeito que Tim escrevia nos três primeiro discos da banda. Dessa vez, apenas um ska marca presença no tracklist, a boa e divertida Where I’m Going, cantada por Lars. Outros destaques são Farewell Lola Blue, Bovver Rock N Roll e Say Goodbye To Our Heroes. A única coisa que falta para que esse álbum seja um clássico é o zeitgeist, mas isso não é culpa do Rancid, que não tem o poder de fazer o tempo voltar. Tudo que eles podem fazer é continuar lançado belos discos como esse.

Ainda entre as bandas veteranas, o Rainer Maria lançou seu álbum de retorno, S/T. Confesso não conhecer bem o trabalho da banda, cujo último disco havia sido lançado em 2006. Aparentemente, essa nova encarnação do trio produz um som um pouco mais lento, mas mais pesado, com guitarras sujas e distorções quase shoegaze, em certos momentos. De qualquer forma, S/T é um belo álbum, que por vezes lembra o som mais recente do Sleater-Kinney, com vocais altos, às vezes quase gritados, e um instrumental que vai do etéreo ao angular. Influencias de The Cure e Placebo também podem ser ouvidas entre as 9 músicas que somam pouco mais de meia hora. Bem legal.


Entre bandas e artistas mais novos (pelo menos para mim) também foram lançados vários álbuns legais. O melhor dele é, provavelmente, Losing, segundo trabalho do Bully. A banda tem um som calcado fortemente na virada dos anos 80 para os 90. Pense em Nirvana, Smashing Pumpkins, Sonic Youth, Dinosaur Jr., Hole e Veruca Salt. Os vocais de Alicia Bognanno vão de doces e melódicos para gritos emotivos em menos de um segundo e o instrumental a acompanha, abusando da distorção e da dinâmica start/stop tão característica de bandas da época. Losing talvez seja um pouco menos pesado que o primeiro álbum do trio, mas é tão bom quanto. Destaque para a faixa Kills To Be Resistant. Melhor descoberta do ano.

Outra boa descoberta foi a colaboração entre os singers/songwritters Courtney Barnnet e Kurt Ville, Lotta Sea Lice. Ambos tem um trabalho próprio já consolidado e interessante, mas a parceria caiu como uma luva, combinando vozes e melodias para alcançar um som que é mais do que a soma das partes. As duas músicas de trabalho, Over Everything e Continental Breakfast são excelentes e bem superiores ao restante das faixas, que não fazem feio, mas não empolgam tanto.

Outro disco com algumas músicas ótimas e outras meio esquecíveis é After The Paty, do Menzingers. Tellin’ Lies, Lookers, Bad Catholics e a música título são muito boas e tem letras interessantes, mas o restante do disco não chama tanto a atenção e no final fica a impressão de que a banda está se repetindo um pouco. Ainda assim é um bom álbum de uma boa banda.

Ainda no território do chamado orgcore, os canadenses do Deforesters lançaram um belo álbum intitulado Leonard. O som da banda lembra Loved Ones, Red City Radio, Nothington e Timeshares. Não há muita novidade aqui, mas sobram instrumentais empolgantes e refrões para serem cantados a plenos pulmões. Para quem gosta do estilo como eu, vale muito a pena conferir. Com uma pegada parecida, mas um tanto mais agressiva, o 88 Fingers Louie lançou um novo disco após 18 anos sem novidades. Variando do pop punk ao hardcore, Thank You For Being A Friend te joga imediatamente para uma sessão de skate no meio dos anos 90. HC melódico de ótima qualidade para tardes ensolaradas.

Ainda mais ensolarado é Boxing The Moonlight, dos americanos do Mister Heavenly. Com influencias muito diversas que vão de rockabilly e arena rock até funk e hip hop, o disco é um ótimo exemplo de como música pop pode ser interessante. Mas confesso não ter ouvido o álbum com a atenção necessária para fazer observações mais aprofundadas. Também ficou faltando conferir o novo disco do Slowdive, que retornou à cena musical com seu som shoegaze bem anos 90 após  22 anos parados. Nessa era de acesso infinito à informação e produtos culturais, é humanamente impossível prestar atenção em tudo que se gostaria, infelizmente. Quem sabe em 2018?