Antes do Pirate Bay, assistir filmes gringos independentes e obscuros sobre punk rock era quase impossível. Mas o mais frustrante nem era isso. O pior era ouvir falar desses filmes, ler sobre eles, e não ter nem onde procurar direito. Quando eu tinha por volta de uns 15 anos, eu deveria ter assistido alguns desses filmes, mas não tinha como. Depois, até tinha como, mas eu estava com uns 30 anos e, apesar de ainda curtir muito punk rock, o aspecto de rito de passagem do negócio já tinha ficado para trás. Então, não me esforcei para ir atrás deles navegando em águas internacionais, por assim dizer. Bom, as vezes a vida te dá uma segunda ou terceira ou quarta chance e você acaba trombando nas coisas sem querer. Nesse caso, foi no YouTube, of all places. Então agarrei essa oportunidade.
Mas antes de dar minhas opiniões irrelevantes sobre alguns desses filmes, é preciso fazer uma breve observação sobre o estado das coisas em 2026. Quando o streaming surgiu, a esperança era que as pessoas poderiam ter acesso a qualquer conteúdo que desejassem, na hora que quisessem. Depois, quando cada conglomerado de mídia resolveu criar sua própria plataforma de streaming, a esperança de poder ter acesso ao catálogo desses estúdios aumentou ainda mais, já que não seria mais necessário nem mesmo negociação de direitos. Mas não. Por algum motivo, essas plataformas simplesmente cagaram para seus próprios (muitas vezes premiados e históricos) catálogos de um tanto que agora podemos achar filmes subidos no YouTube de forma não oficial e os donos desses filmes sequer se dão ao trabalho de impor seu copyright. Dessa forma, versões em HD, com legendas em várias línguas estão disponíveis há anos para serem vistas de graça. Ok. Tá bom para mim, não vou reclamar. Mas é bem estranho.
Decline of the Western Civilization (1981)
O documentário essencial para entender o primeiro período da cena punk de Los Angeles, de 1979 até 1984. A estrutura do filme vai intercalando filmagens de shows de algumas bandas locais com entrevistas feitas tanto com as próprias bandas quanto com moleques da cena. Dessa ultima parte, ficaram famosos os curtos trecho com Pat Smear (Germs, Nirvana, Foo Fighters) e Flea (Red Hot Chilli Peppers), que na real não se destacam em relação aos outros entrevistados. Eram tão moleques e tão pouco articulados quanto os colegas.
Das entrevistas com bandas, dois momentos se destacaram para mim. Primeiro, a formação original do Black Flag mostrando seu espaço de moradia/ ensaios/ todo o resto. O "quarto" de Ron Reyes não passa de um armário semelhante aquelas moradias-caixão de Hong Kong. É tão triste quanto. Não importa se na California ou no sudeste da China, não há nada a se romantizar sobre a vida sem teto ou o squatting. Moradia é uma das necessidades mais básicas dos ser humano. Podem existir squats punks com iniciativas coletivas e horizontais legais em NYC, Londres ou Berlin, mas definitivamente não é o caso nesse doc.
A segunda é a entrevista com Darby Crash em sua cozinha fazendo um ovo, mostrando sua aranha de estimação e contando umas histórias meio sem nexo. Dá para ver o trainwreck prestes a acontecer. O humor autodepreciativo é até engraçado e tem seu charme, mas o teor nonsense e depressivo das falas do vocalista do Germs também me deixou meio triste. Vício em heroína não é uma parada muito divertida e a entrevista me lembrou uma feita com Kurt e Courtney em 1994 enquanto eles "cuidavam" da bebê Frances Bean pior que Darby preparava um ovo. Triste. E um clima pesado, deprê.
Sobre os shows em si, honestamente o melhor era o do Fear, uma banda meio esquecida sem um grande disco ou hit underground. No entanto era a banda mais pronta para ao mesmo tempo tocar punk rock e criar uma atmosfera punk, aquele ar de perigo que vem da música em si mas principalmente do vocalista antagonizando o público e praticamente incitando uma confusão generalizada. Sinceramente bom. Também achei o show do X legalzinho, com uma pegada mais art punk. Do lado negativo, se destacou para mim a apresentação do Germs. Tá pra rir um pouquinho por um minuto, mas é inassistível em sua totalidade.
No final das contas, não fiquei com inveja não. Não é uma cena que eu queria ter feito parte ou que eu tenha ficado interessado em ver muito mais. O que veio antes era mais legal. O que veio depois também.
Decline of the Western Civilization III (1998)
A diretora Penelope Spheers volta a cena punk de Los Angeles para retratar as mudanças ou atualizar o olhar documental. Do ponto de vista musical, o filme é um fracasso completo. Não captura nenhuma banda relevante, que estivesse em seu auge criativo ou que seja lembrada por qualquer um 2026. Isso foi um pouco de propósito, uma vez que o punk rock um pouco mais palatável tinha explodido comercialmente com o sucesso de bandas da Epitaph após a explosão do Offspring. Então, faz sentido que ela tenha procurado retratar bandas que estivessem em um patamar mais próximo dos punks que ela vai entrevistar. Mas ainda assim, o filme não tem nenhuma da relevância musical que o original tinha.
Da mesma forma, a diretora não entrevista punk rockers mais coxinhas, que apenas molham um pé no oceano do estilo de vida punk. O foco das lentes se vira para os gutter punks, os moleques que vivem em squats, punk houses ou na rua meio, em becos e calçadas. Como se pode imaginar, há muito alcoolismo e vicio em drogas pesadas, além de uma atitude compreensivamente niilista em relação a tudo, inclusive às suas próprias vidas. Não é engraçado, nem tenta ser. A diretora as vezes é direta até demais, quase confrontando os entrevistados, mas dado o contexto bruto de tudo, ninguém parece se incomodar muito e ela consegue respostas que parecem sinceras sobre histórias de fida bem tristes.
Para fechar o filme, um moleque que tinha sido recém apresentado morre quando a casa semi abandonada onde alguns punks moram pega fogo no meio da noite e ele não consegue sair. Um dos moleques diz ter tentado acordá-lo, mas ele estava apagado, muito bêbado ou, provavelmente, drogado. É um final chocante e triste como a vida desses adolescentes que muitas vezes preferiram viver nas ruas do que na situação em que estavam. No final, esse terceiro filme da série não consegue capturar muito sobre o punk rock como música ou sobre o movimento punk como um conjunto de ideias. Consegue apenas jogar um aluz sobre essa intercessão entre o punk e adolescentes sem teto na capital mundial do entretenimento.
Suburbia (1983)
Um clássico que todos dizem representar bem a vida de jovens punks da grande Los Angeles no inicio dos anos 80, até por ser dirigido pela mesma diretora dos documentários Decline of the Western Civilization e usar moleques da cena punk como atores (incluindo Flea, baixista do Red Hot Chilli Peppers). O resultado é pesado e triste, principalmente no final.
A história apresenta um adolescente que foge de casa e da mãe alcoólatra. Ele não sabe para onde ir até ser resgatado por um punk alguns anos mais velho, que o leva para a casa onde ele mesmo e outros moleques em situação parecida vivem. O lugar é parte de um conjunto de imóveis abandonados e largados pela prefeitura de um subúrbio não identificado de LA.
Os jovens vivem de pequenos roubos a casas de classe média da cidade e não fazem muito da vida além de assistir TV e criar confusão por onde andam. Coisas pequenas tipo tacar garrafas de vidro em paredes, mijar no jardim das casas, andar por cima de carros chiques, cuspir em vitrines e coisas do tipo. Uma vida bem vazia e sem sentido, mas menos pior do que a situação que tinham antes. No meio do caminho, um dos moleques busca sei irmão mais novo, ainda um criança, e o leva para viver no squat. Uma das punks também é apresentada com mais profundidade. Trata-se de uma vitima de estupro que convive com o trauma sem nenhum apoio especializado e termina se suicidando.
Curiosamente, os antagonistas da história não são os policiais, que deixam os jovens punks em paz por ter mais o que fazer, não se importarem o suficiente, e porque um deles é pai adotivo de um dos moleques. O cara até tenta convencer o personagem a voltar para casa, mas não consegue. Então, frente a falta de ação do governo, um grupo de moradores resolve tomar uma atitude e formar um grupo armado para resolver a situação. Claro que dá merda e no meio do confronto entre os rednecks armados e os punks com táticas e armas improvisadas, o moleque punk pequeno acaba morrendo atropelado. Honestamente nem lembro direto o que acontece depois, qual é o epilogo e coisa e tal.
Minha impressão é que a cena punk de Los Angeles do finalzinho dos anos 70 e inicio dos 80 era violenta, triste e muito vazia de qualquer tipo de ambição artística ou ideológica. Não sei se a cena de Nova Iorque também era assim, até porque existe um período de transição entre a cena original da revista Punk, dos Ramones e dos art punks em torno do CBGBs e a cena do Agnostic Front e outras bandas de NYHC e crossover thrash.
Já a cena de DC tinha todo o tipo de ideais em torno da gravadora Dischord Records, do straight edge ao DYI anticapitalista e feminista. Talvez ali o problema fosse o oposto: em vez de ser vazio, ser cheio demais de regras de conduta. E a cena londrina também era bem diferente, girando em trono do Oi! e do Hardcore D-beat e dividida entre os racistas alinhados com o National Front e os antiracistas alinhados com a tradição skinhead original jamaicana. Enfim, tirando um grande disco dos Adolescents, meu interesse em LA só vai voltar na virada para os anos 90 e a ascensão do Bad Religion e da Epitaph Records.
SubUrbia (1996)
Não há nenhuma conexão direta desse filme com o outro de mesmo nome. Se o filme de 1983 era semiamador e focava em adolescentes de classe trabalhadora perdidos em áreas esquecidas de uma grande metrópole, esse é uma produção hollywoodiana que foca em jovens adultos de classe média perdidos em um strip mall de uma cidade pequena. Todos eles têm dead end jobs que odeiam, mas boa parte do seu tempo é gasto ficando bêbados ao lado de uma loja de conveniência, no meio de um gigantesco estacionamento onde também se encontram um posto de gasolina, uma loja de bebida alcoólicas, um fast food genérico e uma lavanderia. É um cenário distópico, não de uma forma futurista, mas como símbolo do que deu errado no modelo de expansão das cidades americanas no pós-guerra.
Visualmente, é perceptível a tentativa de capturar o visual alternativo do meio dos anos 90. O look dos protagonistas é muito inspirado no Green Day. O trailer quase parece um videoclipe esquecido da banda lançado entre When I come Around e Walking Contradiction. Jeff é Billie Joe (o artista atormentado que overthink tudo), Tim é Mike Dirnt (o punk reservado), e Buff é Tre Cool (o comediante hiperativo que não para de fazer macaquices). Mas as comparações meio que param por aí também. Não é algo tão profundo assim.
Isso não significa que alguns dos personagens não tentem ser profundos. Sooze é namorada de Jeff, uma artista feminista amadora que quer ir para Nova Iorque viver das suas pinturas e performances. Ela executa uma dessas performances, meio dança e sapateado meio spoken word terrivelmente cliché. Acho que era para ser engraçado mas só da muita vergonha alheia mesmo.
Durante o filme ela dá um pé na bunda de Jeff e vai para Los Angeles com Pony, o único da turma que de fato saiu da cidadezinha e foi fazer musica profissionalmente. Ele está a beira de estourar de verdade mas passa pelo antigo ponto de encontro para ver os antigos amigos. Eles se dão bem porque são os únicos que não parecem cronicamente depressivos ou com uma visão niilista da vida aos vinte e pouco anos.
Jeff é um músico que não tenta mais tocar, não tenta arrumar um trabalho melhor para sair da casa dos pais, não apoia a ideia da namorada de se mudar, não consegue ficar feliz pelo amigo que conseguiu algum sucesso, não ve sentido no american way of life mas participa dele na inercia e reclama de tudo mas não age para mudar nada. É um niilismo depressivo de alguém que é inteligente mas que usa essa qualidade apenas para pensar demais e discutir por tudo em uma mesa de fast food.
Já Tim é um niilista mais Sid Vicious. Antigo quarteback do time da escola que não tinha o que fazer depois da formatura, se alistou no exercito para "ir ver o mundo e ter aventuras" (a ideia mais americana e mais estúpida do mundo), só para terminar cortando a ponta do próprio dedo fora para ser dispensado e receber um beneficio mensal qualquer.
Diferente de Jeff, Tim leva mais a serio a ideia de que se nada tem significado ou valor e se ele e a sociedade não têm futuro, é melhor tacar fogo na porra toda. Mas ele não tem nenhuma grande ideia para destruir o sistema nem nada assim. Ele se contenta em antagonizar todo mundo com uma atitude babaca e em ser racista com o dono e atendente da loja de conveniência, uma paquistanês chamado Nazeer, que já está mais do que de saco cheio de e dos amigos. Além de xingar e tentar partir para cima do migrante, ele arruma até uma arma para escalar a briga depois de ser preso por algumas horas por beber em público ou qualquer bobagem do tipo. Dá para ver que Tim vai terminar a vida preso ou morto após cometer algum crime idiota just because.
Buff é completamente idiota e parece nunca ter saído da quinta série. Às vezes parece até ter algum tipo de retardo mental. E por ultimo temos Bee Bee, a amiga de Sooze. Ela é uma alcoólatra em recuperação que se coloca sempre em segundo plano, escondida não por timidez ou para parecer misteriosa, mas por não fazer parte do grupo mas também porque a saúde mental dela está por um fio. No final do filme, ela finalmente fica sob os holofotes ao sofrer uma overdose e ser encontrada a beira da morte no telhado da loja de conveniência.
Não é um filme engraçado. também não é exatamente triste. Também não te deixa com raiva. Em vez disso, te deixa com uma sensação de vazio. Nesse sentido ele consegue com sucesso fazer o espectador ter uma ideia de quão vazia é a vida e a noite dos protagonistas. Dá mesma forma que o strip mall suburbano em que vivem, a vida deles poderia ser objetivamente muito pior, mas é meio deprimente mesmo assim.
SLC Punk (1998)
É uma comédia meio caricatural e boa exatamente por isso. Pelo exagero dos personagens e situações, que deixam o filme engraçado e leve. As reflexões mais interessantes sobre o movimento punk e sobre crescimento ficam em segundo plano, mas não escondidos, o que funciona bem. O personagem principal é Stevo, que muitas vezes quebra a 4ª parede e fala com espectadores, tem todo tipo de reflexões sobre a sua vida e sobre o punk. quem está assistindo, também tem. Essas são as minhas, em resumo:
Não é a toa que a maioria dos punks de 77 e do inicio dos anos 80 eram adolescentes ou, no máximo, tinham 20 e poucos anos. Quando tinham mais, quase sempre eram pessoas em situações muito precárias de vida. Gutter punks sem teto convivendo com alcoolismo e vicio em drogas, na maioria das vezes. É muito difícil ser um punk de moicano, coturno, calças rasgadas e jaqueta de couro com spikes quando se tem um emprego, filhos, se cuida dos pais idosos, paga boletos e vai ao mercado comprar itens de higiene pessoal antes de passar na reunião de condomínio. Não é impossível, mas é difícil. Geralmente quem consegue é quem tem muito pouco a perder na vida, o que não é o caso do protagonista do filme.
A ideia pode parecer careta ou até reacionária, mas não precisa ser. É verdade que a maioria das pessoas que um dia se disseram punks ou que cresceram com punk rock e fazendo parte de alguma cena punk não chegam aos 30 com uma atitude niilista, falando em derrubar o sistema ou viver uma vida anarquista. Mas podem incorporar no seu dia a dia pequenas lições ensinadas a elas pelo punk. E muitas vezes fazem. Seja vivendo a vida sem idolatrar ninguém, sem procurar por heróis ou salvadores de qualquer tipo, seja trabalhando em um esquema de cooperativa, seja tendo casamentos de alguma maneira não convencionais, seja ensinando a ética do faça você mesmo para seus filhos, seja apenas evitando levar uma vida que valorize de forma exagerada o dinheiro e a busca pela riqueza.
Tem quem acha que essa visão transigente do punk é vendida, ou burguesa ou sei lá o que. Entendo que um dos punks do Decline of the Western Civilization pense assim de mim ou do Stevo. Mas eu não acho. O que eu acho é que fazer concessões é necessário para viver bem. O truque está em achar onde desenhar a linha. E saber de que lado você não vai se sentir mal de pisar, onde vai conseguir dormir bem e feliz, sem se machucar, sem contradizer seus próprios ideais.
Nesse sentido SLC punk é bem maduro, apesar do tom exagerado e caótico da filmagem e edição. Apesar da história terminar de forma triste, com a morte do melhor (único?) amigo de Stevo, Bob Heroína, foi o único desses filmes que não me deixou meio para baixo depois de assistir. Não sei se isso faz dele menos punk.
This is England (2006)
Ufa! Saímos dos EUA e podemos ter uma visão diferente do punk. This is England conta a história de Shaun, um moleque de 12 anos que perdeu o pai na Guerra das Malvinas. Desde o inicio do filme ele demonstra ter uma raiva semi reprimida que explode quando ele é provocado na escola, na loja de conveniência ou na rua, por um grupo de skinheads liderados por Woody, que parecem ser uns 10 anos mais velhos que ele, mas o acolhem mesmo assim, como um mascote. Shaun se se bem por ser parte de algo e ter para onde direcionar sua energia, em pequenos atos de vandalismo.
A falta de acesso à terapia e a uma forma produtiva de processar o luto ou traumas, leva muita gente a lidar com esses sentimentos de forma autodestrutiva. Também faz as pessoas procurarem acolhimento em grupos de gente com problemas similares. Durante o final dos anos 70 e inicio dos 80, muitas vezes eram grupos de punks ou de skinheads. O filme é bem realista nesse sentido e também demonstra que esse sentimento de pertencimento e irmandade por der algo positivo ou negativo. No caso de Shaun, é inicialmente algo bom, mas depois vai dar errado e levar ele ser influenciado por más pessoas.
No enredo do filme, esse personagem é Combo, um skinhead que liderava o antigo grupo do qual Woody fazia parte e agora saiu da prisão e logo de cara demonstra que vai tentar tomar conta desse novo grupo também. Além de demonstrate um certo carisma e comandar atenção, Combo tenta conquistar o grupo apresentando a eles uma missão, um conjunto de ideias para guiar suas ações: o nacionalismo inglês. As ideias racistas e xenófobas que colocam a culpa de todos os problemas do país e da vida da classe trabalhadora nos imigrantes, sejam jamaicanos, sejam paquistaneses e indianos.
De novo, o roteiro é muito calcado na realidade, na forma como esse neofascismo do partido National Front conquistou uma parte considerável da working class inglesa, francesa e de outros países da Europa, e que agora mostra sua face de novo nos EUA por meio da figura de um playboy herdeiro bilionário que se apresenta como outsider e dá vazão a raiva e frustrações de pessoas brancas de todas as classes sociais por meio de falas e ações racistas e anti migração, além de atacar os pilares da democracia, enquanto promove um conservadorismo religioso que se opõe à modernidade e à ciência. Tudo isso é resumido por meio de slogans nacionalistas como America First e fascistas como Make America Great Again, que demonstra uma vontade de voltar a um passado idealizado onde a nação teria sido grande.
No filme, isso é mostrado em sua faceta mais banal e pé no chão. O grupo de se divide entre quem não quer saber das ideias de Combo e quem vê nelas, e na figura dele, uma caminho para dar vazão às próprias frustrações; Infelizmente Shaun decide ficar com Combo e começa a ser doutrinado e radicalizado por ele. No entanto, apesar de mostrar o novo grupo cometendo atos de vandalismo e ameaçando o dono paquistanês da loja de conveniência, o foco acaba sendo em como Combo vira uma figura paterna pra o moleque, um modelo de masculinidade, o que talvez seja ainda pior que as ideias nacionalistas e racistas.
Esse foco em um grupo pequeno de jovens entre 12 e vinte e muitos anos também serve como uma amostra do que aconteceu com a cultura skinhead britânica, dividida entre aqueles que continuaram seguindo as tradições dos skinheads e rude boys jamaicanos que deram origem ao movimento, e aqueles que a transformaram em algo ligado ao nacionalismo, à xenofobia, e em ultima instancia, ao neonazismo.
No final das contas, Combo acaba perdendo a cabeça depois de ser rejeitado pela namorada de Woody, com quem ele tinha se envolvido brevemente antes de ser preso. Após pressionar Milky, o único skin negro do grupo antigo a conseguir maconha, os dois vão para a casa de Combo que, no meio da festa, fica com inveja da família de Milky e, em um acesso de raiva, espanca o migrante jamaicano na frente de Shaun e dos outros membros da sua própria gangue. O crime parece ser o ultimo prego no caixão do grupo, apesar do filme não deixar claro o que acontece depois.
Da mesma forma que vários dos outros filmes que eu comentei aqui, o sentimento que prevalece para mim é a tristeza, mas do que a revolta contra os personagens racistas e violentos. As cidades são tristes, as famílias são tristes, até os crimes são tristes, meio deprimentes. No caso de skinheads, a trilha sonora de toda essa tristeza é o punk rock oi! e o reggae. A primeira faz um apelo a irmandade e convida todos no pub a cantar junto sobre os working class heroes como o pai de Shaun. A segunda é um link permanente com as raízes jamaicanas do movimento, mesmo quando é escutada pelo lado racista do movimento, em um anacronismo que demonstra o quanto as pessoas e as sociedade podem ser hipócritas.
Para mim, a sensação que fica é que o Joy Division é quem melhor capturou em música a atmosfera da Inglaterra do inicio dos anos 80. E This is England capturou bem em filme o estado de espirito do país no mesmo período.
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